LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
Pizza de micro-ondas
E. J. de Morais
Goiânia/GO
É impressionante como as pessoas deixam marcas. Impressionante e triste, para falar
a verdade. E pior, elas deixam marcas em todo lugar. Não consigo olhar mais para aquela
mesa que a gente comprou juntos. Eu a vendi: tem um buraco no meio do meu apartamento
agora (você deixou vários desses em mim). Não é como se eu precisasse de você para me
completar, mas você me fazia bem, sabe? Eu me sentia melhor com você por perto.
Os filmes que a gente via junto? Eles perderam a graça. É complicado falar disso,
mas o cinema francês me parece bem menos atraente agora. Só estou assistindo comédias
norte-americanas (principalmente as que você mais odiava). Também sinto saudade de
quando você me mostrava suas músicas favoritas. Você que me fez gostar da Cássia Eller.
Agora, igual ela cantou, eu me sinto um vaso sem flor. Ah!, como você amava aquela
música! E eu amava te ouvir cantando. Era fora do ritmo? Era. Era fora de tom? Era. Mas
era você. E eu amava tudo o que você fazia, até o que você fazia errado.
Você dizia amar minha comida, mas eu nunca tinha cozinhado antes de te conhecer.
No nosso segundo ou terceiro encontro, você me disse que eu tinha que preparar algum
prato para te conquistar. No quarto ou quinto, eu fiz aquele macarrão. Não foi nada muito
difícil, mas você me fez sentir como um chef de Paris. Eu gostei daquilo, de verdade.
Cozinhar me fazia feliz, porque te deixava feliz. Depois disso, foram vários brownies,
strogonoffes, feijoadas e lasanhas. Você dizia que eu só melhorava. E, quando eu estava
tentando aprender a fazer pizza, você se foi.
Aquele acidente foi fatal para nós dois. O maior problema, é que para você ele o foi
literalmente.
Então, foi assim que você me deixou: com um apartamento esburacado, com um
gosto para filmes questionável e com várias caixas de pizza de micro-ondas, mas está tudo
bem. A culpa não foi sua. Eu já deveria ter aprendido a viver sem você. É, quem eu estou
tentando enganar? Você me completava sim. De que adianta o vaso, se não tem mais a flor?
132