LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
brilho das águas. Suas mãos saíram do fundo e pegaram a bola com delicadeza,
devolvendo ao grupo em um único gesto. Com tanta atenção voltada a ele, Ícaro
percebeu apenas que os olhos de Gustavo também eram claros.
O sol parecia uma plateia atenta, esperando o segundo ato dos olhos que
conversavam. Na mente inibida de Ícaro, não existia a possibilidade de contato,
ele já tinha o que precisava para criar as próprias brincadeiras. Enquanto
Gustavo era desafio, uma fase que precisava ser vencida, para zerar esse jogo
silencioso. Não sabia de onde vinha a coragem, mas ela existiu:
- Você quer brincar dealgumacoisa? – “De perto, era estranho”. Foi a única coisa
que o seu pensamento ensolarado conseguiu formular, o que fez com que o final
da frase se perdesse, levando os olhos as folhas intrusas sobre a água.
- Ah, eu... Eu não sei. – Era a resposta que Ícaro usava para muitas coisas. –
Não sei nadar muito bem...
- Ô GUSTAVINHO! – Alguém chamava na beira da piscina. – Vamos jogar bola no
campo, você vem?
O convite veio de um menino chamado Diego, que parecia inalcançável além da
água, de pé, com o corpo gotejando. As duas possibilidades se chocavam no ar,
enquanto Gustavo pensava sobre elas: Jogar bola, brincar com o Diego e os
outros, tudo era sempre a mesma coisa. Ele ainda queria saber que tipo de
brincadeira aquele menino contido guardava para si. De súbito, o medo de ser
julgado pelos amigos fez com que olhasse para a escada no canto da piscina,
perto de onde os outros esperavam.
- Você sabe jogar bola? – Seu convite distorcido era cheio de esperanças, para
que uma só brincadeira pudesse juntar os interesses.
- Não sou muito bom, mas pode ir, eu... Eu fico aqui. – Foi tudo o que Ícaro pode
oferecer.
Tudo era uma questão de desafio. Gustavo olhou ao seu redor e percebeu que o
sol estava ficando mais pálido, as moças se enrolavam em toalhas brancas e iam
para o banheiro, deixando pegadas de água. Enfim, decidiu. Queria as ondas
esquecidas, uma brincadeira nova e os últimos raios de verão.
- Podem ir, depois eu vou. – A resposta inesperada deixou o grupo atônito, na
sombra. Gustavo simplesmente voltou-se para o novo amigo e disse: - Então,
vamos fazer alguma coisa que você goste de brincar.
Ele tinha um sorriso confiante que Ícaro julgava não merecer. Naquele fim de
tarde, parecia simples ter o seu primeiro amigo. Os medos desaceleravam junto
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