Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 127

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 brilho das águas. Suas mãos saíram do fundo e pegaram a bola com delicadeza, devolvendo ao grupo em um único gesto. Com tanta atenção voltada a ele, Ícaro percebeu apenas que os olhos de Gustavo também eram claros. O sol parecia uma plateia atenta, esperando o segundo ato dos olhos que conversavam. Na mente inibida de Ícaro, não existia a possibilidade de contato, ele já tinha o que precisava para criar as próprias brincadeiras. Enquanto Gustavo era desafio, uma fase que precisava ser vencida, para zerar esse jogo silencioso. Não sabia de onde vinha a coragem, mas ela existiu: - Você quer brincar dealgumacoisa? – “De perto, era estranho”. Foi a única coisa que o seu pensamento ensolarado conseguiu formular, o que fez com que o final da frase se perdesse, levando os olhos as folhas intrusas sobre a água. - Ah, eu... Eu não sei. – Era a resposta que Ícaro usava para muitas coisas. – Não sei nadar muito bem... - Ô GUSTAVINHO! – Alguém chamava na beira da piscina. – Vamos jogar bola no campo, você vem? O convite veio de um menino chamado Diego, que parecia inalcançável além da água, de pé, com o corpo gotejando. As duas possibilidades se chocavam no ar, enquanto Gustavo pensava sobre elas: Jogar bola, brincar com o Diego e os outros, tudo era sempre a mesma coisa. Ele ainda queria saber que tipo de brincadeira aquele menino contido guardava para si. De súbito, o medo de ser julgado pelos amigos fez com que olhasse para a escada no canto da piscina, perto de onde os outros esperavam. - Você sabe jogar bola? – Seu convite distorcido era cheio de esperanças, para que uma só brincadeira pudesse juntar os interesses. - Não sou muito bom, mas pode ir, eu... Eu fico aqui. – Foi tudo o que Ícaro pode oferecer. Tudo era uma questão de desafio. Gustavo olhou ao seu redor e percebeu que o sol estava ficando mais pálido, as moças se enrolavam em toalhas brancas e iam para o banheiro, deixando pegadas de água. Enfim, decidiu. Queria as ondas esquecidas, uma brincadeira nova e os últimos raios de verão. - Podem ir, depois eu vou. – A resposta inesperada deixou o grupo atônito, na sombra. Gustavo simplesmente voltou-se para o novo amigo e disse: - Então, vamos fazer alguma coisa que você goste de brincar. Ele tinha um sorriso confiante que Ícaro julgava não merecer. Naquele fim de tarde, parecia simples ter o seu primeiro amigo. Os medos desaceleravam junto 123