Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 126

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 Olhos d’água Leonardo Camargo Itaberá/SP O silêncio da tarde era interrompido pela alegria de verão sobre as águas. Na piscina do clube, crianças se jogavam desajeitadas e gritavam entre si, desenhando jatos aquáticos sobre as cabeças. As moças, que exibiam seus corpos para o sol, murmuravam incômodos e saiam da beira da piscina, incomodadas pelos respingos. Mas nada disso diminuía a algazarra das crianças, em plena terça feira de férias. No meio dos meninos de ombros ossudos, Gustavo se divertia ao nadar até o meio da piscina, batendo os pés como havia aprendido nas aulas de natação. Para chegar até a parede, sempre precisava desviar de Ícaro, o menino que todos conhecem, mas de poucos amigos. Como todas as crianças, ele estava ali, seu corpo submerso e os cabelos molhados, mas ele passava despercebido, feito o movimento das nuvens rarefeitas no céu. Ícaro parecia a sombra da água, sempre desviando pelos arredores. Enquanto os meninos faziam círculos e jogavam bola com as mãos, ele enchia os pulmões de ar e afundava para onde os pés estavam, sentindo a textura do piso com as mãos. Se os meninos resolviam chegar mais próximo da parte onde “não dava pé”, ele parecia conduzido pela brisa das conversas, mas sempre com cuidado, deixando uma distância calculada. O grupo de meninos livres era o enigma da infância. Ícaro sentia-se atraído pelos seus risos leves e pela possibilidade de fazer o que quiser, mas ao mesmo tempo seus olhos enfeitiçados petrificavam, atingidos pela síndrome do patinho feio, de não pertencer e não ser digno. Às vezes ele se pegava com ódio, a raiva de ser assim, desse jeito. Queria não ter esses olhos, claros demais. Achava que tinha olhos de cego. Era mais fácil olhar para dentro. Enquanto os olhos de Ícaro pesavam, os de Gustavo se expandiam e colocavam o garoto solitário em seu retrato de verão. Ele se perguntava: O que tem de errado com esse menino? Ele parece normal, mas não conversa, parece que não sabe ser criança. Ao redor de Gustavo, várias brincadeiras aconteciam ao mesmo tempo, uma bola vermelha se distanciava da roda pelo movimento da água, ondas provocadas por mãos e pés. O convite da brincadeira foi indo e chegando até a ilha branca de cabelos enroladinhos. Os olhos de Ícaro pareciam refletir o 122