LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019
a água, deixando de ser ondas para formar um lago. Aos poucos, Ícaro foi
mostrando quais eram os seus brinquedos.
- Eu gosto de criar... Histórias.
- Como assim?
- Ah, de inventar, fazer de conta que esse é um outro lugar, outras pessoas...
No silêncio das águas, a imaginação de Gustavo se aproximava.
- Eu queria ser outra pessoa, às vezes.
- Eu também.
E foram. Naquele entardecer, Gustavo e Ícaro eram dois piratas, cavalheiros ou
criaturas de superpoderes, perdidos em uma ilha deserta. Eles corriam dos
perigos, lutavam com os inimigos, até toda a água secar na pele marcada de sol.
Quando toda a luz se tornou laranja, os dois cansados sentaram com os pés na
água infinita e dividiram silêncios. Acreditavam que havia um tesouro no fundo
do mar, cada vez mais escuro pela noite que se aproximava. Só era possível
alcançar o fundo com Ícaro, que descrevia todo o mergulho, trazendo a Gustavo
as bolhas e conchas pela voz mansa. Deitados no piso morno, dois meninos
enxergavam na piscina os enigmas de um oceano inteiro, desvendado em ondas
azuis, vindas dos olhos de Ícaro.
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