Revista LiteraLivre 13ª edição | Page 120

LiteraLivre Vl. 3 - nº 13 – Jan/Fev. de 2019 O ponto Iris Franco Diadema/SP Saí de casa sem olhar pra trás, os pedaços da minha pele eram jogados nos cantos das esquinas. Estava de noite, escuro. Aquele tipo de escuro que faz você querer voltar para o confortável, mesmo sabendo que existem outras escuridões que te consomem mais. Partia para a liberdade, estava me sentindo sufocada pelas aspirações dos meus pais acerca do futuro que não tive, dos amigos que se diziam amigos até eu descobrir a finitude de uma amizade, do emprego que era uma droga, das séries de namorados que tive esperando que o próximo seria “o cara” e, finalmente, estava cansada de mim. Afinal, só cheguei nesta situação patética porque eu permiti que os outros fizessem isso comigo, por não ter a coragem de dizer não. Vários nãos cochichavam no meu ouvido enquanto sorria por fora. Eu sempre fui um reflexo, não a responsável pela imagem. Por muitas vezes, entre um sorriso e um olhar, gritei. Berrei tantas vezes por socorro, só que ninguém me ouviu. Todos estavam interessados em suas vidas, todos estavam entretidos na sua redoma de felicidade, todos pareciam mais felizes do que eu. No fundo, no fundo, me sentia igual aquela camiseta velha, jogada no canto do armário e cheia de naftalina. Uma garoa fina, o toc toc dos sapatos. O silêncio e o vento frio da madrugada estavam me abraçando com gentileza. Nenhum carro na estrada, atravessei a rua até chegar no ponto de ônibus, todo fodido, todo pichado e todo torto. Sentei nos bancos vermelhos e sim, eles estavam com uma poça d’água e sim, eles molharam a minha bunda. Isso me irritaria profundamente se eu já não estivesse com a vida cagada. 116