LiteraLivre Vl. 2 - nº 12 – Nov./Dez. de 2018
Tam Luang
Márcio Castilho
Volta Redonda/RJ
Se escancarara a monstruosa bocarra
Que capturara, na chuva, a turva água,
Que digerira a pedra, o pólen, a pele,
Que devastara a graça da criança.
E lá, no fundo do teu rotundo
estômago,
Aprisionada, no nada, ficou a infância,
Sob a lama que se esparramara no
pântano,
Sem tom, sem som, sem reentrâncias.
Trouxera esperança às crianças que a
terra aprisionara.
Tal qual baleia de barriga cheia
Que na mandíbula articula rijos dentes
pontiagudos
Sem demora, devoraras, num átimo, a
vida,
Desafiastes, ó caverna, em suas
cisternas, o mundo.
Entre estertores, vapores, ar rarefeito,
Vindos dos pulmões de Tham Luang,
Clamaram, na ânsia, à vida, o direito
Night, Note, Nick e Pong;
Sôfrego, teu esôfago estreito
Num cáustico bailar peristáltico
Dirigira o que ingerira afoito
A um moribundo mundo logo abaixo.
E Mig, Bew, Dul, Dom,
E Mark, Tern, Tee, Titan,
Na confiança criança que, num tom,
Reclama e espera a etérea luz da
manhã.
Lá, no colo do subsolo,
Mudo, qual buda, Ake meditara;
Aos javalis, ali, dera consolo,
Às crianças e seu treinador presas na caverna de Tham Luang na Tailândia.
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