LiteraLivre Vl. 2 - nº 12 – Nov./Dez. de 2018
Perguntou-se quantos vizinhos estariam mortos ali com ele, em gesto
derradeiro de solidariedade entre condôminos. Considerou a hipótese de chamar
por Otaciliano, o velho que habitava o apartamento ao lado, só que se recordou a
tempo de que o homem era surdo de pedra, jamais o ouviria. Lembrou-se
também da síndica do edifício, com quem passara a simpatizar após uma série de
reuniões, ao conferir que se tratava de pessoa séria e genuinamente empenhada
em buscar a melhor solução administrativa viável. De resto, na última
assembleia, sentiu que ela demonstrou simpatia similar por ele e não era
relacionamento de jogar fora, não senhor!
Nesse momento, o “sorterrado” percebeu pequeno feixo de luz entre os
escombros. Observando com maior atenção, viu que provinha de muito alto. Com
o que lhe restou do seu lado católico, interpretou aquilo como um sinal divino, a
reclamar esforço consistente de reflexão.
Sorte? Errado!
Ninguém deveria julgar a morte um golpe de sorte. Enganoso o
pensamento de que se pode fugir simplesmente, dessa forma, aos constantes
desafios da vida. O ser humano precisa superar-se, permanentemente. Nada de
suposto heroísmo! Desse papo furado de matar-se um leão por dia. Bastaria dar
a volta por cima. Reencontrar os amigos, restabelecer maior contato com os
filhos, recuperar a confiança da mulher e até (quem sabe?) recorrer a um
empréstimo, apesar de apavorante essa última opção.
Epaminondas conseguiu, aos poucos, livrar-se dos escombros que o
retinham e sair em busca da luz. “Sorterrado” que nada! Tinha muito que viver
ainda. Deu-se conta de que, caso se apressasse, poderia encontrar o bar aberto
para uma cerveja restauradora.
Ficar soterrado soou-lhe finalmente... aterrador!
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