Revista LiteraLivre 12ª edição | Page 169

LiteraLivre Vl. 2 - nº 12 – Nov./Dez. de 2018 Perguntou-se quantos vizinhos estariam mortos ali com ele, em gesto derradeiro de solidariedade entre condôminos. Considerou a hipótese de chamar por Otaciliano, o velho que habitava o apartamento ao lado, só que se recordou a tempo de que o homem era surdo de pedra, jamais o ouviria. Lembrou-se também da síndica do edifício, com quem passara a simpatizar após uma série de reuniões, ao conferir que se tratava de pessoa séria e genuinamente empenhada em buscar a melhor solução administrativa viável. De resto, na última assembleia, sentiu que ela demonstrou simpatia similar por ele e não era relacionamento de jogar fora, não senhor! Nesse momento, o “sorterrado” percebeu pequeno feixo de luz entre os escombros. Observando com maior atenção, viu que provinha de muito alto. Com o que lhe restou do seu lado católico, interpretou aquilo como um sinal divino, a reclamar esforço consistente de reflexão. Sorte? Errado! Ninguém deveria julgar a morte um golpe de sorte. Enganoso o pensamento de que se pode fugir simplesmente, dessa forma, aos constantes desafios da vida. O ser humano precisa superar-se, permanentemente. Nada de suposto heroísmo! Desse papo furado de matar-se um leão por dia. Bastaria dar a volta por cima. Reencontrar os amigos, restabelecer maior contato com os filhos, recuperar a confiança da mulher e até (quem sabe?) recorrer a um empréstimo, apesar de apavorante essa última opção. Epaminondas conseguiu, aos poucos, livrar-se dos escombros que o retinham e sair em busca da luz. “Sorterrado” que nada! Tinha muito que viver ainda. Deu-se conta de que, caso se apressasse, poderia encontrar o bar aberto para uma cerveja restauradora. Ficar soterrado soou-lhe finalmente... aterrador! 163