Revista LiteraLivre 12ª edição | Page 168

LiteraLivre Vl. 2 - nº 12 – Nov./Dez. de 2018 Sorterrado JAX Brasília/DF A vida do pobre Epaminondas andava mal mesmo. Mudara de emprego e arrependeu-se. O salário, inicialmente maior, reduziu-se sob o peso de nova retomada da inflação no Brasil. Já não dispunha dos benefícios do trabalho anterior, que serviam para compensar as ocasionais perdas no vencimento. A mulher reclamava cada dia mais: da situação financeira, da deterioração do apartamento, do distanciamento e da indiferença dos filhos (parentes e amigos, também), das cervejinhas que o marido insistia em tomar, do cigarro que passou a empestear o lar e até do alegado desapego do seu companheiro de outrora. Fazer o quê? A idade e as crescentes atribulações pesavam no ânimo de Epaminondas. Renunciou ao cigarro, limitou a cerveja aos sábados, mas tudo só fazia piorar. A mulher resolveu morar com uma das irmãs e ele nem sabia ao certo se não fora trocado por outro, na verdade. Aproximava-se a eleição presidencial e ele ignorava em quem votar. A situação ficou tão ruim que, quando o prédio desabou, ele nem se incomodou de ficar soterrado. Assustou-se um pouco, de início, depois resignou- se ao cheiro da poeira levantada e da pressão dos escombros. Não tinha como mexer braços e pernas ou outra parte do corpo. Consolava-se, porém, ao pensar que as pressões em sua vida teriam sido bem mais significativas e doloridas. Com seu habitual gosto pelo jogo de palavras, Epaminondas concluiu que o soterramento constituíra solução bem-vinda para tantos problemas no final de sua existência. Golpe de sorte! Ao invés de soterrado, encontrou-se “sorterrado”, livrando-se imediata e definitivamente de todas as aflições pregressas. Respirou aliviado, isto é, respirou o que deu daquele ar rarefeito e empoeirado, em meio à forte pressão de parte do teto do apartamento sobre os pulmões. 162