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Reflexo Cultural
A
música considerada por
Denise como “chiclete”,
de qualidade inferior, ge-
ralmente segue a mesma
fórmula, a do caminho fácil, que
rima “amor” com “dor” junto com
uma melodia também fácil. E isso
é o que pega a grande massa.
Uma música com uma melodia e
harmonia mais sofisticada é mais
difícil de fazer sucesso de massa.
Mas por quê?
Um motivo razoável é o fato
de que o que está fazendo suces-
so é um reflexo do nosso sistema
educacional, das nossas deficiên-
cias como formadores de público.
Martins afirma que há uma par-
cela política e midiática que acre-
dita que se é isso que o povo quer,
é só isso que ele deve ouvir. Mas
não é bem assim. “As pessoas ou-
vem o que está tocando, pois só é
dado o que está tocando”, opina.
Se fossem ofertados outros
tipos de músicas, coisas fora do
universo já familiar, seria possível
que uma parcela se interessasse
e abrisse o leque de preferên-
cias. Para entender melhor, é só
pensar na hora do almoço. To-
dos os dias, só te é oferecida uma
opção: o bom e velho PF (prato
feito). Mas, em um dia especial,
alguém sugere que você coma
algo mais sofisticado, sem pagar
nada a mais por isso. Você certa-
mente vai aceitar. E, a partir daí,
vai depender do gosto do fre-
guês. Uns vão falar “ah, eu gosto
mesmo é do PF, esse prato aqui
não é bom pra mim não”. Outros
vão aprovar e pedir mais refei-
ções desse tipo. O errado é limitar
o gosto da pessoa ao PF.
“Você vai ouvindo música
ruim todo dia na sua vida, não te
dão nenhuma outra opção, o seu
padrão estético vai ser baixo. Se o
nível cultural fosse um pouquinho
maior, o que faz sucesso seria di-
ferente”, acredita Martins.
Pensando em cultura, pode-
mos traçar um paralelo com pre-
conceito musical. Entre os gêneros
é muito comum acreditar que os
outros estilos são inferiores ao que
você gosta ou toca. Mas não é as-
sim. Uma boa saída para ofertar
ao público coisas diferentes, sem
depender de uma mudança tão
complexa da política e da mídia,
seria que isso partisse dos próprios
músicos. Como? Fazendo um in-
tercâmbio musical.
Isso já acontece. Pouco, em
pequenos nichos, mas acontece.
Já é possível encontrar parcerias
entre Criolo, vindo do rap, com
Chico Buarque, e Anitta colabo-
rando com Silva, um dos grandes
nomes da nova MPB, ou fazen-
do um trio com Caetano Veloso e
Gilberto Gil, como aconteceu na
abertura das Olimpíadas 2016.
Com isso, um aprende com o
outro e, de certa forma, eleva o
nível desses artistas mais popu-
lares, injetando neles um ânimo
para se aprimorarem. Assim, as
músicas vão melhorar e o povo
vai se elevar, por osmose. Deni-
se, além de colunista, é idealiza-
dora do festival Santos Jazz, que
acontece na cidade-título todo
último final de semana de julho.
Lá, ela investe justamente nisso,
nessa mescla de novidade e ex-
periência, aproveitando pautas
do cotidiano que dialogam com
o público jovem. “As pessoas vão
para ver uma banda ou artista
e escutam uma banda de blues
e gostam. Quebra o preconceito
e aumenta o conhecimento mu-
sical”, explica.
Mas, mais triste ainda, é quan-
do esse preconceito acontece
dentro do mesmo estilo. E a nossa
tribo roqueira é a que mais assu-
me esse papel “excluidor”. Os fãs
de heavy metal têm preconcei-
to com todos os outros nichos. E
dentro do próprio nicho há o pre-
conceito com o novo. Parece até
que as bandas não enaltecem os
novatos por medo de perder es-
paço. Tomando como exemplo o
sertanejo, um dos motivos para
ele crescer cada vez mais, é que
um traz o outro. Um faz propa-
ganda do outro. E os fãs acabam
adicionando na playlist, sem ex-
cluir os mais experientes.
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