REVISTA EQUALIZE - Nº 0 Revista TCC VERSÃO DIGITAL | Page 21

Reflexo Cultural A música considerada por Denise como “chiclete”, de qualidade inferior, ge- ralmente segue a mesma fórmula, a do caminho fácil, que rima “amor” com “dor” junto com uma melodia também fácil. E isso é o que pega a grande massa. Uma música com uma melodia e harmonia mais sofisticada é mais difícil de fazer sucesso de massa. Mas por quê? Um motivo razoável é o fato de que o que está fazendo suces- so é um reflexo do nosso sistema educacional, das nossas deficiên- cias como formadores de público. Martins afirma que há uma par- cela política e midiática que acre- dita que se é isso que o povo quer, é só isso que ele deve ouvir. Mas não é bem assim. “As pessoas ou- vem o que está tocando, pois só é dado o que está tocando”, opina. Se fossem ofertados outros tipos de músicas, coisas fora do universo já familiar, seria possível que uma parcela se interessasse e abrisse o leque de preferên- cias. Para entender melhor, é só pensar na hora do almoço. To- dos os dias, só te é oferecida uma opção: o bom e velho PF (prato feito). Mas, em um dia especial, alguém sugere que você coma algo mais sofisticado, sem pagar nada a mais por isso. Você certa- mente vai aceitar. E, a partir daí, vai depender do gosto do fre- guês. Uns vão falar “ah, eu gosto mesmo é do PF, esse prato aqui não é bom pra mim não”. Outros vão aprovar e pedir mais refei- ções desse tipo. O errado é limitar o gosto da pessoa ao PF. “Você vai ouvindo música ruim todo dia na sua vida, não te dão nenhuma outra opção, o seu padrão estético vai ser baixo. Se o nível cultural fosse um pouquinho maior, o que faz sucesso seria di- ferente”, acredita Martins. Pensando em cultura, pode- mos traçar um paralelo com pre- conceito musical. Entre os gêneros é muito comum acreditar que os outros estilos são inferiores ao que você gosta ou toca. Mas não é as- sim. Uma boa saída para ofertar ao público coisas diferentes, sem depender de uma mudança tão complexa da política e da mídia, seria que isso partisse dos próprios músicos. Como? Fazendo um in- tercâmbio musical. Isso já acontece. Pouco, em pequenos nichos, mas acontece. Já é possível encontrar parcerias entre Criolo, vindo do rap, com Chico Buarque, e Anitta colabo- rando com Silva, um dos grandes nomes da nova MPB, ou fazen- do um trio com Caetano Veloso e Gilberto Gil, como aconteceu na abertura das Olimpíadas 2016. Com isso, um aprende com o outro e, de certa forma, eleva o nível desses artistas mais popu- lares, injetando neles um ânimo para se aprimorarem. Assim, as músicas vão melhorar e o povo vai se elevar, por osmose. Deni- se, além de colunista, é idealiza- dora do festival Santos Jazz, que acontece na cidade-título todo último final de semana de julho. Lá, ela investe justamente nisso, nessa mescla de novidade e ex- periência, aproveitando pautas do cotidiano que dialogam com o público jovem. “As pessoas vão para ver uma banda ou artista e escutam uma banda de blues e gostam. Quebra o preconceito e aumenta o conhecimento mu- sical”, explica. Mas, mais triste ainda, é quan- do esse preconceito acontece dentro do mesmo estilo. E a nossa tribo roqueira é a que mais assu- me esse papel “excluidor”. Os fãs de heavy metal têm preconcei- to com todos os outros nichos. E dentro do próprio nicho há o pre- conceito com o novo. Parece até que as bandas não enaltecem os novatos por medo de perder es- paço. Tomando como exemplo o sertanejo, um dos motivos para ele crescer cada vez mais, é que um traz o outro. Um faz propa- ganda do outro. E os fãs acabam adicionando na playlist, sem ex- cluir os mais experientes. EQUALIZE 21