REVISTA EQUALIZE - Nº 0 Revista TCC VERSÃO DIGITAL | Page 22
E o rock?
O
conceito de qualidade já foi de-
finido. Ficou evidente sua sub-
jetividade e a necessidade de
aprimorar o conhecimento cul-
tural do público. Mas, se, em termos gerais,
o rock tem dificuldade em agregar o que é
novo, existe rock de qualidade hoje?
Primeiro, é preciso entender que há uma
divergência entre os entendedores de mú-
sica do que pode ser considerado rock ou
não. Cavalcanti acredita que, na medida
em que o rock nacional foi incorporando
elementos desconhecidos ao ritmo, desde
a década de 1980, é difícil entender o que
seria esse ritmo aqui em terras tupiniquins.
“No Brasil não se cria rock efetivamen-
te. Não é uma linguagem daqui, é impor-
tada. No máximo são adaptações do que
tem lá fora”. O que tem mesmo, para ele,
está dentro do metal, punk e hardcore. O
que ficou conhecido como “rock pesado”.
E essas bandas não fazem sucesso com o
grande público. O que faz sucesso é Titãs,
Barão Vermelho, Os Paralamas do Suces-
so, que são formas híbridas dentro des-
se conceito. Então, para ele, não. Não há
rock de qualidade hoje para a massa. Ali-
ás, mal há rock.
Porém, há uma linha de pensamento
menos radical que considera como rock
essas formas híbridas e menos “pesadas”.
Nesse aspecto, a opinião de Martins e De-
nise é bem mais semelhante. Denise inclu-
sive cita Titãs, Paralamas, Cazuza e Legião
como artistas que possuíam características
de rock e acredita que eles tenham sido a
última geração forte desse estilo.
Isso porque tanto ela quanto Martins
enxergam o rock como uma subversão, no
bom sentido. Um meio da juventude bri-
gar por direitos e protestar contra o siste-
ma vigente. Hoje, eles acreditam que essa
conexão com os jovens se perdeu. Denise
vê essa desconexão vindo justamente des-
sa falta de briga. “Você vê alguns roquei-
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ros com discursos horrorosos, o Roger por
exemplo, defendendo coisas absurdas e,
cara, cadê o rock? Será que até o rock vai
ser careta? Onde nós estamos?”, indaga.
Falta representatividade.
Martins olha para o rock e percebe uma
introspecção que, de certa forma, afastou
o público. A banda Los Hermanos foi a
percursora desse novo rock nacional. Falta
diálogo. Falta protesto. E falta diversão. “A
música de balada é o sertanejo, vou sair,
vou beber. E a música de protesto foi feita
por um certo tempo pelo rap”, acredita.
Assim, tendo qualidade ou não, o fato é
que o rock hoje não tem um público. E isso
devido à perda de a sua contemporanei-
dade. A grande mancha do rock foi o aca-
so do Charlie Brown Jr., que foi a última
grande banda que tinha essa facilidade de
dialogar com o público. “O Chorão era um
puta frontman. As letras falavam muito
sobre o dia a dia do adolescente. As pes-
soas se identificavam. E quando aconteceu
a decadência do Charlie Brown, não ne-
cessariamente a morte do Chorão,
não veio alguém que continu-
asse isso, ou que fosse uma op-
ção mais roqueira ao Charlie
Brown”, lembra Martins.
O rock está numa posi-
ção, hoje, muito desconfor-
tável. Se você for falar com
qualquer promoter de show,
ele prefere trazer o funkeiro,
por que com ele vem o DJ,
uma dançarina, um seguran-
ça. Com uma banda de rock você
precisa trazer dez ou quinze ca-
ras. Não compensa. Se não está
compensando para o cara da
casa de show, do barzinho,
não vai estar nas cenas po-
pulares, e vai acabar per-
dendo a conexão com a
garotada.