[Mod.]
EU NÃO NASCI PRA ISSO
SSSSSSSSSSSSSSSSSsSSs sssssss EGEEEE1’´GVVVHHHHHH \\
J
á começo este texto com uma linha fina
de impacto. Você é capaz de traduzir?
A frase que sucede o título foi escrita
por uma criança de 1 ano e 5 meses; meu
filho. É algo que não tem tradução, mas
tem muito significado. Isso porque estar
aqui hoje, deixando um filho, fruto de uma
gravidez não planejada, participar da minha
rotina acadêmica, é um grande avanço para
uma mulher que não queria ser mãe. E ele
está aqui, ao meu lado, brincando e por
vezes batendo a mão no teclado, enquanto
tento elaborar nos meus pensamentos a
melhor forma de falar sobre maternidade; ou
melhor dizendo, sobre a “não-maternidade”,
porque não se trata só de ser, é também
sobre não ser, já que esse desejo (ou talvez a
falta dele) é real e merece ser discutido. Mas
já adianto, essa é uma escolha que não nos
torna “menos mulheres”, nos torna “apenas”
donas de nossos próprios corpos e de nossas
próprias decisões.
A sociedade sempre nos impõe padrões
de comportamentos, em especial ligados à
maternidade, que, caso não sejam seguidos,
geram estranhamento, desconforto e muitas
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Dandara Aveiro
vezes revolta. Mas afinal, o instinto materno
existe e o que isso significa? Segundo estudos
antropológicos da pesquisadora Sarah B.
Hrdy, a fêmea possui um instinto biológico
a partir de hormônios formados no período
da gestação, que responde a estímulos não
programados da mãe para sua cria. Mas isso
não é o mesmo que dizer que ao dar à luz, a
mãe está pronta para cuidar de seu filho ou
que essa reação biológica está baseada no
amor incondicional. Nem toda mulher quer
de fato ser mãe. Nem toda mulher nasceu de
fato para ser mãe. Nem toda mulher de fato
se torna mãe.
Junto com a onda de empoderamento
feminino e do movimento em prol da liberdade
de escolha (o que é bastante vantajoso, diga-se
de passagem), cresceu o número de mulheres
que decidiram não ter filhos. De acordo com
dados do IBGE da última pesquisa realizada
em 2010, 14% das mulheres brasileiras não
planejam ser mães, e o Censo mostra que o
número médio de filhos nos últimos 50 anos
caiu de 6,1 para 1,9.
A desconstrução da imagem de mulher
frágil, dona de casa, que cuida do lar, dos