Revista Elas nov. 2019 | Page 90

[Mod.] EU NÃO NASCI PRA ISSO SSSSSSSSSSSSSSSSSsSSs sssssss EGEEEE1’´GVVVHHHHHH \\ J á começo este texto com uma linha fina de impacto. Você é capaz de traduzir? A frase que sucede o título foi escrita por uma criança de 1 ano e 5 meses; meu filho. É algo que não tem tradução, mas tem muito significado. Isso porque estar aqui hoje, deixando um filho, fruto de uma gravidez não planejada, participar da minha rotina acadêmica, é um grande avanço para uma mulher que não queria ser mãe. E ele está aqui, ao meu lado, brincando e por vezes batendo a mão no teclado, enquanto tento elaborar nos meus pensamentos a melhor forma de falar sobre maternidade; ou melhor dizendo, sobre a “não-maternidade”, porque não se trata só de ser, é também sobre não ser, já que esse desejo (ou talvez a falta dele) é real e merece ser discutido. Mas já adianto, essa é uma escolha que não nos torna “menos mulheres”, nos torna “apenas” donas de nossos próprios corpos e de nossas próprias decisões. A sociedade sempre nos impõe padrões de comportamentos, em especial ligados à maternidade, que, caso não sejam seguidos, geram estranhamento, desconforto e muitas 9 0 Dandara Aveiro vezes revolta. Mas afinal, o instinto materno existe e o que isso significa? Segundo estudos antropológicos da pesquisadora Sarah B. Hrdy, a fêmea possui um instinto biológico a partir de hormônios formados no período da gestação, que responde a estímulos não programados da mãe para sua cria. Mas isso não é o mesmo que dizer que ao dar à luz, a mãe está pronta para cuidar de seu filho ou que essa reação biológica está baseada no amor incondicional. Nem toda mulher quer de fato ser mãe. Nem toda mulher nasceu de fato para ser mãe. Nem toda mulher de fato se torna mãe. Junto com a onda de empoderamento feminino e do movimento em prol da liberdade de escolha (o que é bastante vantajoso, diga-se de passagem), cresceu o número de mulheres que decidiram não ter filhos. De acordo com dados do IBGE da última pesquisa realizada em 2010, 14% das mulheres brasileiras não planejam ser mães, e o Censo mostra que o número médio de filhos nos últimos 50 anos caiu de 6,1 para 1,9. A desconstrução da imagem de mulher frágil, dona de casa, que cuida do lar, dos