Revista Elas nov. 2019 | Page 59

Nise revelou que as mulheres passam cerca de 10 horas a mais que os homens realizando afa- zeres domésticos e de cuidado com os outros. 93% das mulheres escutadas afirmaram que gastam 21,3 horas semanais com essas ativi- dades, enquanto 84.3% dos homens dispen- sam 10,9 horas com as mesmas ocupações. É tanto tempo vivendo assim, que, para nós é preciso aprender a se colocar como prioridade. Por isso autocuidado é uma ex- periência de vida e busca constante por uma vivência genuína enquanto mulheres. É quan- do nos possibilitamos colocar a máscara de oxigênio primeiro em nós, para depois cuidar dos outros. Nossos direitos não são permanentes -quanto 85.1% afirmaram cuidar, sozinhas, da arrumação do domicílio. Somente em re- lação à realização de reparos no domicílio, automóveis e eletrodomésticos é que elas não assumiram a maior responsabilidade, tendo o número ficado em 31.4% em comparação aos 66.6% dos homens. Por muito tempo, uma vida tida como de sucesso para uma mulher era ter um bom partido para se casar, ter uma casa bem estru- turada e cuidar dos filhos enquanto o marido trabalha. Esse padrão já não nos serve mais, nunca serviu, foi, antes de qualquer coisa, re- flexo de uma sociedade centrada no sucesso do homem às custas da mulher que segurava as pontas em casa com as crianças. Fomos para o mercado de trabalho e aí a coisa cresceu. Jornadas duplas, a casa, o trabalho, os filhos, parece que nunca era hora de cuidar de si. A mesma pesquisa do IBGE Lá em 2016, quando um golpe tira do poder a primeira mulher a ocupar o Execu- tivo no Brasil, já se mostravam os sinais dos tempos que viriam. Com Temer, o país era preparado para uma política que chegaria balançando as estruturas, não no bom sen- tido. Em junho de 2018, assistimos ao fim da Secretaria Nacional de Políticas Públicas para Mulheres, a ponta do iceberg. Com Bolsonaro à frente da presidên- cia da República, saltava aos olhos do país e do mundo um governo que faria ressurgir o fascismo, o discurso de ódio, a misoginia, o preconceito e o descaso com o meio ambiente e com a população periférica. O candidato do PSL foi, desde as eleições, e, antes delas, no- civo e tóxico para nós, mulheres, um perigo e retrocesso para os direitos já conquistados. Iara Falleiros, fala sobre o sentimento que lhe inundou o peito quando Bolsonaro ganha as eleições de 2018. “A crise da de- mocracia vinha acontecendo e a chegada do Bolsonaro foi uma representação muito forte do fascismo crescente no Brasil. Para mim, 5 9