A revolução é maior ainda quando uma
mulher periférica cuida de si. Isto porque,
“Quando você não deveria viver, como você
é, onde você está, com quem você está, então,
sobreviver é uma ação radical; uma negativa
à não-existência até o fim; nós temos que des-
cobrir como sobreviver em um sistema que
decide que a vida de alguns exige a morte ou
a remoção de outros. Às vezes: sobreviver
em um sistema é sobreviver ao sistema”. A
fala potente é da escritora, ativista e feminis-
ta, Sara Ahmed.
Autocuidado para mulheres é um ato
revolucionário. “É ferramenta política de
existência e resistência. Não é esse combo
vendido no supermercado, não é o pacote no
SPA, não é a viagem para Miami. Autocuida-
do é utilidade pública. É saúde mental. Não
pode, de forma alguma, estar disponível para
poucas mulheres”, destaca Gabrielle.
Quando cuidamos de corpos que estão
destinados a cuidar dos outros e não a serem
cuidados, subvertemos a lógica, histórica,
posta para nós. Olhar com carinho pra si é
trucar o sistema imposto e recusar viver se-
gundo uma ideologia misógina de gênero
predominante e retrógrada.
Não aprendemos a cuidar de nós
Típica e fácil de encontrar é a cena em
que meninos brincam com carrinhos, com
jogos legais para montar e robôs, enquanto
meninas trazem nos braços bonecas, cada
vez mais realistas. Enquanto os homens são
estimulados a desenvolver o raciocínio, nós,
mulheres, somos ensinadas, desde a infância,
a cuidar dos outros e da casa.
A terapeuta holística, Cristiane Cruz,
conta que em conversas simples com pacien-
tes percebe que as mulheres têm dificuldade
de se olhar como prioridade.
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Autocuidado para mulheres é ato coletivo
“A mulher tem por hábito cuidar de to-
dos. O marido é filho, o filho é filho, a mãe
é filho, o pai é filho, a gente quer tomar con-
ta de todo mundo e aí a gente não cuida da
gente. Muitas vezes eu começo minha terapia
com uma pergunta: o que você precisa? E a
mulher não sabe responder, porque ela nunca
parou para pensar. Precisamos nos conhecer,
é um processo, também, individual. A auto-
cura passa pelo autoconhecimento, passa por
saber o que eu preciso de mim mesma”, ates-
ta Cristiane.
Uma pesquisa divulgada pelo IBGE no
primeiro semestre de 2019 demonstra que vi-
vemos a divisão sexual do trabalho em casa.
Na vida com um cônjuge, 97.9% das mulhe-
res responderam que eram responsáveis por
preparar alimentos e lavar louça. 94.4% delas
se disseram responsáveis por cuidar da lim-
peza e manutenção de roupas e sapatos, en-