Revista Elas nov. 2019 | Page 58

A revolução é maior ainda quando uma mulher periférica cuida de si. Isto porque, “Quando você não deveria viver, como você é, onde você está, com quem você está, então, sobreviver é uma ação radical; uma negativa à não-existência até o fim; nós temos que des- cobrir como sobreviver em um sistema que decide que a vida de alguns exige a morte ou a remoção de outros. Às vezes: sobreviver em um sistema é sobreviver ao sistema”. A fala potente é da escritora, ativista e feminis- ta, Sara Ahmed. Autocuidado para mulheres é um ato revolucionário. “É ferramenta política de existência e resistência. Não é esse combo vendido no supermercado, não é o pacote no SPA, não é a viagem para Miami. Autocuida- do é utilidade pública. É saúde mental. Não pode, de forma alguma, estar disponível para poucas mulheres”, destaca Gabrielle. Quando cuidamos de corpos que estão destinados a cuidar dos outros e não a serem cuidados, subvertemos a lógica, histórica, posta para nós. Olhar com carinho pra si é trucar o sistema imposto e recusar viver se- gundo uma ideologia misógina de gênero predominante e retrógrada. Não aprendemos a cuidar de nós Típica e fácil de encontrar é a cena em que meninos brincam com carrinhos, com jogos legais para montar e robôs, enquanto meninas trazem nos braços bonecas, cada vez mais realistas. Enquanto os homens são estimulados a desenvolver o raciocínio, nós, mulheres, somos ensinadas, desde a infância, a cuidar dos outros e da casa. A terapeuta holística, Cristiane Cruz, conta que em conversas simples com pacien- tes percebe que as mulheres têm dificuldade de se olhar como prioridade. 5 8 Autocuidado para mulheres é ato coletivo “A mulher tem por hábito cuidar de to- dos. O marido é filho, o filho é filho, a mãe é filho, o pai é filho, a gente quer tomar con- ta de todo mundo e aí a gente não cuida da gente. Muitas vezes eu começo minha terapia com uma pergunta: o que você precisa? E a mulher não sabe responder, porque ela nunca parou para pensar. Precisamos nos conhecer, é um processo, também, individual. A auto- cura passa pelo autoconhecimento, passa por saber o que eu preciso de mim mesma”, ates- ta Cristiane. Uma pesquisa divulgada pelo IBGE no primeiro semestre de 2019 demonstra que vi- vemos a divisão sexual do trabalho em casa. Na vida com um cônjuge, 97.9% das mulhe- res responderam que eram responsáveis por preparar alimentos e lavar louça. 94.4% delas se disseram responsáveis por cuidar da lim- peza e manutenção de roupas e sapatos, en-