Revista Elas nov. 2019 | Page 56

“ Autocuidado é autopreservação” Por que tem sido tão urgente falar sobre autocuidado e trazer essa vivência para mulheres? Para além do viés de cuidados com a beleza difundidos pela indústria de cosméticos, autocuidado, para nós, mulheres, significa autopreservação, cuidar de si, da mente e do coração para poder resistir. Como termo, autocuidado para mulhe- res foi cooptado pela indústria que enxergou aqui um potencial para consumo. Não por- que isso lhes trará bem-estar e saúde, mas porque as tornarão apresentáveis e dentro do padrão estereotipado imposto por uma socie- dade patriarcal e conservadora. É sobre o que comenta a jornalista Gabrielle Estevans ao dizer que “superficializar a discussão do au- tocuidado — que é o que a indústria faz — é perigosíssimo não só porque nos afasta de um cuidado de fato potente e transformador, mas Ilustração: Andrea Tolaini 5 6 Ilustração: Andrea Tolaini também porque relega, muitas vezes, o auto- cuidado ao setor de beleza que, sabemos, é uma pressão estética gigantesca para mulhe- res”, afirma Gabrielle. “Cuidar de mim mesma não é auto in- dulgência, é autopreservação, um ato de luta política” é o que já defendia Audre Lorde, em 1988, no epílogo de A Burst of Light (em tra- dução livre, Uma explosão de luz). Autocuidado, então, para nós, mulhe- res, está ligado a olhar para dentro. Não se relaciona, necessariamente, com uma massa- gem relaxante, um chá de ervas ou um ba- nho demorado, vai além. “O autocuidado tem uma dimensão política para nós, mulheres. Diferente do que prega o mercado, o autocui- dado nem sempre é algo prazeroso, mas cer- tamente é uma prática capaz de nos salvar em muitas situações de risco”, atesta a jornalista. O que interessa é o que está por trás do ato que se pretende como autocuidado. Cui- dar de si passa por desenvolver a capacidade de entender o que precisamos para nos man- termos com saúde e estáveis, entender nossas necessidades a longo prazo. De acordo com Gabrielle, autocuidado passa por “olharmos