“
Autocuidado é autopreservação”
Por que tem sido tão urgente falar sobre
autocuidado e trazer essa vivência para
mulheres? Para além do viés de cuidados
com a beleza difundidos pela indústria de
cosméticos, autocuidado, para nós, mulheres,
significa autopreservação, cuidar de si, da
mente e do coração para poder resistir.
Como termo, autocuidado para mulhe-
res foi cooptado pela indústria que enxergou
aqui um potencial para consumo. Não por-
que isso lhes trará bem-estar e saúde, mas
porque as tornarão apresentáveis e dentro do
padrão estereotipado imposto por uma socie-
dade patriarcal e conservadora. É sobre o que
comenta a jornalista Gabrielle Estevans ao
dizer que “superficializar a discussão do au-
tocuidado — que é o que a indústria faz — é
perigosíssimo não só porque nos afasta de um
cuidado de fato potente e transformador, mas
Ilustração: Andrea Tolaini
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Ilustração: Andrea Tolaini
também porque relega, muitas vezes, o auto-
cuidado ao setor de beleza que, sabemos, é
uma pressão estética gigantesca para mulhe-
res”, afirma Gabrielle.
“Cuidar de mim mesma não é auto in-
dulgência, é autopreservação, um ato de luta
política” é o que já defendia Audre Lorde, em
1988, no epílogo de A Burst of Light (em tra-
dução livre, Uma explosão de luz).
Autocuidado, então, para nós, mulhe-
res, está ligado a olhar para dentro. Não se
relaciona, necessariamente, com uma massa-
gem relaxante, um chá de ervas ou um ba-
nho demorado, vai além. “O autocuidado tem
uma dimensão política para nós, mulheres.
Diferente do que prega o mercado, o autocui-
dado nem sempre é algo prazeroso, mas cer-
tamente é uma prática capaz de nos salvar em
muitas situações de risco”, atesta a jornalista.
O que interessa é o que está por trás do
ato que se pretende como autocuidado. Cui-
dar de si passa por desenvolver a capacidade
de entender o que precisamos para nos man-
termos com saúde e estáveis, entender nossas
necessidades a longo prazo. De acordo com
Gabrielle, autocuidado passa por “olharmos