Na maioria das vezes, empreender é a
única saída para a sobrevivência de pessoas
periféricas. É o que revela a pesquisa divul-
gada pela Fundação Perseu Abramo, em fe-
vereiro de 2019.
O estudo ouviu 31 trabalhadores e tra-
balhadoras do Brasil, revisitando 16 anos da
trajetória de cada um no mercado de trabalho.
A constatação foi que, diferente da gourmeti-
zação que se vê com as grandes corporações
que hoje vendem empreendedorismo como
inovação, liberdade e sucesso, o empreen-
dedorismo de base no Brasil tem muito mais
haver com sobrevivência.
Exploração e não liberdade
A coordenadora da pesquisa, Ludmila
Abílio, em entrevista à Fundação Perseu
Abramo, alerta para a precar ização do traba-
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-lho em decorrência do crescimento do nú-
mero de pessoas que enxergam na vida au-
tônoma a saída para o desemprego. “Não é
que eles não querem ter carteira assinada. É
que eles sabem que na condição deles, com a
qualificação que eles têm, o trabalho que vão
conseguir é para ganhar menos e talvez tra-
balhar mais e serem mais explorados. Claro
que esse trabalhador ou essa trabalhadora não
está pondo na ponta do lápis a aposentadoria,
férias, FGTS. São formas de aprofundamento
da exploração, e não de liberdade”, afirma.
Os termos em inglês - que aparecem
aos montes em todos eventos de empreen-
dedorismo - e toda a gourmetização da eco-
nomia criativa e do empreendedorismo - não
representam, de forma genuína e integradora,
as partes que compõem esse ecossistema. A
pesquisa do GEM mostrou que oito milhões
de empreendedores não completaram o ensi-
no médio e, 23,9% das pessoas iniciando um
negócio não tinham, sequer, ensino funda-
mental completo.
É o caso de Beatrys Fernanda, jovem
de 22 anos, moradora do Jardim Niceia, área
periférica de Bauru, interior de São Paulo.
Betrys estudou até o segundo ano do ensino
médio e hoje tem na venda de saladas, parte
do projeto Enactus da Unesp de Bauru, sua
única fonte de renda. Sua história veremos
mais para frente.
A microempreendedora individual,
Sueli Campos, é mulher periférica e comenta
sobre as dificuldades da falta de estudo e co-
locação no mercado de trabalho. “Depois de
casada resolvi terminar o ensino médio, mas
é tudo diferente, a gente não tem a mesma
facilidade para aprender como na infância e
adolescência. Mas terminei… E, mesmo ter-
minando, não tive oportunidades no mercado
de trabalho por não ter experiência, nunca ti-