Revista Elas nov. 2019 | Page 126

Na maioria das vezes, empreender é a única saída para a sobrevivência de pessoas periféricas. É o que revela a pesquisa divul- gada pela Fundação Perseu Abramo, em fe- vereiro de 2019. O estudo ouviu 31 trabalhadores e tra- balhadoras do Brasil, revisitando 16 anos da trajetória de cada um no mercado de trabalho. A constatação foi que, diferente da gourmeti- zação que se vê com as grandes corporações que hoje vendem empreendedorismo como inovação, liberdade e sucesso, o empreen- dedorismo de base no Brasil tem muito mais haver com sobrevivência. Exploração e não liberdade A coordenadora da pesquisa, Ludmila Abílio, em entrevista à Fundação Perseu Abramo, alerta para a precar ização do traba- 1 26 -lho em decorrência do crescimento do nú- mero de pessoas que enxergam na vida au- tônoma a saída para o desemprego. “Não é que eles não querem ter carteira assinada. É que eles sabem que na condição deles, com a qualificação que eles têm, o trabalho que vão conseguir é para ganhar menos e talvez tra- balhar mais e serem mais explorados. Claro que esse trabalhador ou essa trabalhadora não está pondo na ponta do lápis a aposentadoria, férias, FGTS. São formas de aprofundamento da exploração, e não de liberdade”, afirma. Os termos em inglês - que aparecem aos montes em todos eventos de empreen- dedorismo - e toda a gourmetização da eco- nomia criativa e do empreendedorismo - não representam, de forma genuína e integradora, as partes que compõem esse ecossistema. A pesquisa do GEM mostrou que oito milhões de empreendedores não completaram o ensi- no médio e, 23,9% das pessoas iniciando um negócio não tinham, sequer, ensino funda- mental completo. É o caso de Beatrys Fernanda, jovem de 22 anos, moradora do Jardim Niceia, área periférica de Bauru, interior de São Paulo. Betrys estudou até o segundo ano do ensino médio e hoje tem na venda de saladas, parte do projeto Enactus da Unesp de Bauru, sua única fonte de renda. Sua história veremos mais para frente. A microempreendedora individual, Sueli Campos, é mulher periférica e comenta sobre as dificuldades da falta de estudo e co- locação no mercado de trabalho. “Depois de casada resolvi terminar o ensino médio, mas é tudo diferente, a gente não tem a mesma facilidade para aprender como na infância e adolescência. Mas terminei… E, mesmo ter- minando, não tive oportunidades no mercado de trabalho por não ter experiência, nunca ti-