Revista Aquaculture Ed 16 16-ed-revista-ab-aquaculture-brasil-issu | Page 75

Fabiano Müller Silva: Santa Catarina sempre se destacou pelo pioneirismo, tanto na piscicultura como na maricul- tura. Saímos na frente em termos de produção e pro- dutividade na piscicultura nacional. O Estado possui uma área territorial de 95.442,9 km 2 , representando apenas 1,12% do território nacional. A estrutura fundiária des- taca-se pela predominância de pequenas propriedades (66,3% das propriedades possuem área entre 1 e 20ha). Aliado a isso, sabíamos que as características topográficas e climáticas, seriam uma barreira natural para que nos mantivéssemos sempre à frente da produção da piscicul- tura nacional. Mesmo em clima subtropical, penso que a tilápia ainda será por muito tempo o carro chefe da piscicultura catarinense, pois foi a espécie escolhida pelo mercado. Mas certamente estamos atentos e buscando sempre selecionar e estudar espécies nativas como o jun- diá (Rhamdia quelen) e o lambari (Astyanax altiparanae) ou exóticas potenciais e mais adaptadas as condições do Estado. A criação de camarões marinhos teve início em Santa Catarina em 1983, embora o pioneirismo da ativi- dade no Estado tenha sido na década de 70. Inicialmente as fazendas instaladas utilizavam espécies nativas (Penaeus paulensis e P. schmitti). Problemas relacionados à indis- ponibilidade de pós-larvas e falta de tecnologia limitou o desenvolvimento dos cultivos. A introdução do camarão L. vannamei, em 1998, e os resultados positivos alcança- dos, culminou com o lançamento pelo Governo do Esta- do do “Programa Estadual de Cultivo de Camarões Ma- rinhos”, objetivando beneficiar principalmente famílias de pescadores artesanais e pequenos e médios produtores. A carcinicultura no estado chegou ao seu ápice em 2004, com 4.200 toneladas. Mas as condições ambientais me- nos favoráveis a esta espécie tropical, oportunizaram o aparecimento de doenças que reduziram drasticamente a produção a partir de 2005. A continuidade da carci- nicultura no Estado se viabilizará com a implantação de tecnologias de cultivos em condições controladas, tanto sanitária como do ambiente. AQUACULTURE BRASIL: Em um estado com tantas oscila- ções de temperatura, além de vários meses com tempe- raturas muito abaixo do ideal para as principais espécies aquícolas regionais/nacionais, porque investe-se tão pou- co em tecnologias intensivas, estufas e sistemas fechados em SC? É a questão do perfil do pequeno produtor ca- tarinense? Fabiano Müller Silva: As tecnologias de cultivo intensi- vo em estufas e sistemas fechados são processos pro- dutivos que necessitam de uma melhor avaliação de viabilidade técnica e econômica. Os altos investimen- tos de implantação e os custos de energia e ração na produção, exigem que as espécies a serem cultivadas devam ter um valor agregado alto a fim de que seja possível viabilizar o negócio. A não implantação destes sistemas não tem relação com o perfil do produtor ca- tarinense, pois o mesmo investe grandes recursos em sistemas de produção de frangos e suínos. No meu ver, os sistemas intensivos de produção em ambiente controlado de organismos aquáticos serão o futuro da aquicultura, mas ainda não temos um pacote tecno- lógico comercial validado para as condições de Santa Catarina, o que deverá ser buscado em médio prazo. AQUACULTURE BRASIL: O melhoramento genéti- co realizado pelo Cedap já vem mostrando resulta- dos no campo? É possível que, em breve, SC tenha uma linhagem de tilápia mais adaptada ao seu clima? Fabiano Müller Silva: A tilápia da linhagem Gift, de- senvolvida na Ásia, foi introduzida no país em 2005 e atualmente é considerada uma das melhores linhagens no Brasil. Apesar de ser uma população já melhorada, a seleção ocorreu em países com clima tropical. Com três gerações de seleção, a Epagri acredita que a linha- gem denominada Gift-Epagri, já está mais adaptada ao clima subtropical e possui um potencial de pelo menos 15% superior para ganho de peso em relação ao ani- mal introduzido no estado em 2011. O programa de melhoramento genético da Epagri é um dos únicos núcleos públicos de tilápia Gift no Brasil. Todas as no- vas gerações de matrizes são avaliadas em seu ganho genético, acompanhando o desempenho zootécnico em Unidades de Referência Técnica – URT, nas pro- priedades de piscicultores comerciais, onde é feito o levantamento dos parâmetros (peso final, sobrevivên- cia, taxa de crescimento específico, conversão alimen- tar, produtividade), rendimento de filé e porcentagem de gordura visceral. Através destes acompanhamentos também são realizados os levantamentos de custo de produção e contabilidade da produção (receita bruta, lucro líquido, ponto de equilíbrio, taxa interna de re- torno, entre outros). O projeto Gift-Epagri já entregou em torno de 60.000 matrizes para produtores de ale- vinos de Santa Catarina e outros estados brasileiros. AQUACULTURE BRASIL: Como está o desenvolvimento da produção de jundiás, além de outras espécies de peixes nativos? 75 2019 principal produtor aquícola nacional. Hoje, já não ocupa as três primeiras posições, perdendo espaço para outros estados. Por que SC vem ficando para trás? Seria a ques- tão de insistir em espécies tropicais, como a tilápia e o Litopenaeus vannamei, numa região subtropical?