Revista Aquaculture Ed 16 16-ed-revista-ab-aquaculture-brasil-issu | Página 62

Visão aquícola Giovanni Lemos de Mello Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC Editor-chefe da Revista Aquaculture Brasil Laguna, SC giovanni@aquaculturebrasil.com Biofloco em caixa d’água: triste ilusão E m 2019, a cada minuto 4,5 milhões de vídeos são vi- sualizados no YouTube, 18,1 milhões de textos são en- viados pelo WhatsApp e 188 milhões de e-mails são enviados (dados da Visual Capitalist). Que velocidade de comunicação e disseminação de informações! E as notícias aquícolas, de caro- na nessa incrível transformação, chegam cada vez mais rápido aos interessados, como você, caro leitor. Falando nisso, quem nunca viu ou leu a respeito da criação de peixes ou camarões em caixas d´água? Notícias boas e ruins, fake news ou informa- ções técnicas relevantes? Eis a questão. A coluna “Atualidades e tendências da aquicultura”, do grande Fábio Sussel, publicada na 6ª edição de nossa revista impressa (e online em 30/07/17) é, até hoje, um dos maiores sucessos do portal Aquaculture Brasil. Somente nos últimos 12 meses, foram 11.546 visualizações (dados estatísticos do Google Analy- tics), ficando em segundo lugar neste período entre as páginas mais acessadas da AB. O título da coluna em questão: “Criação de peixes em caixas d’água – nova moda entre os iniciantes”. Apesar de, diariamente, quase 32 pessoas lerem o arti- go supracitado nos últimos 12 meses, fico impressionado, e igualmente decepcionado, como também cresce o número de interessados em fazer exatamente o que o Sussel não reco- mendou! “Dá para produzir em caixas de 1.000 L? Não! Co- mercialmente falando não. Engana-se quem começa a procurar informações sobre esta técnica de cultivo achando que conse- guirá renda com poucas caixas de mil litros” (Sussel, 2017). É preciso destacar a irresponsabilidade das pessoas que di- vulgam este tipo de informação. Nem em caixa d’água, nem atrás de casa ou do sítio! Aquicultura não é hobby, é negócio, e necessita de escala. Sistemas de recirculação aquícola e de bioflocos (antagônicos no conceito produtivo, mas similares em produtividade, tratamento e reutilização de água, biossegurida- de, além do alto custo de produção), simplesmente são inviáveis em pequenos módulos! Por exemplo, com 350 mil reais, você consegue construir cerca de 1.400 m³ de um sistema de bioflocos para camarões marinhos. Vamos supor que você produza 3 kg/m³/ciclo e faça três ciclos por ano. A produção anual será de 12.600 kg de ca- marões marinhos. Nada mal!... Será???... Preço de venda “pés no chão”, vamos considerar que você comercializou a produ- ção, em média, por R$ 20,00/kg. Temos um faturamento bruto anual de 252 mil reais. Cuidado com os números distantes des- tes acima que são facilmente produzidos no WhattsApp. Como existem especialistas em bioflocos nas mídias sociais... lá se con- segue 5-6 kg/m 3 /ciclo fácil fácil... 62 A produção e faturamento descritos são muito pequenos para um negócio aquícola intensivo, que alia alta produtividade e tecnifi- cação, monitoramento constante (e os custos inerentes a isto), além dos altos riscos. O custo fixo, especialmente relativo à mão de obra, vai falir o projeto hipotético acima. Para qualquer projeto comercial, inclusive o que estamos superficialmente discutindo, precisamos de, no mínimo, três funcionários fixos. Salário médio de R$ 1.500,00/ mês + encargos sociais, o custo com mão de obra chegará perto dos R$ 100 mil anuais! Estou considerando que um destes funcioná- rios terá que trabalhar todas as noites, incluindo as madrugadas dos finais de semana e feriados, onde justamente a maioria dos proble- mas acontecem. Dividindo R$ 100.000,00/12.600 kg = R$ 7,94 de custo de mão de obra/kg de camarão. Ainda nem falamos dos custos da ração ou energia elétrica, estes sim, talvez os principais itens de despesa de uma carcinicultura supe- rintensiva. Mas nem é preciso “destrinchar” estes valores, o prejuízo do modelo hipotético acima é certo. Um projeto de 1.400 m³ não é viável nem aqui nem na China... e o custo fixo demonstra isso! Lembro há 15-20 anos atrás, quando surgiram boa parte das fazendas de carcinicultura marinha que hoje ainda existem no Brasil. Em Santa Catarina, o tamanho médio das fazendas cons- truídas foi de 14 ha. Com preço médio de R$ 50.000,00/ha para a construção, eram montantes ao redor de R$ 700.000,00 para implantar cada fazenda... isso há 20 anos atrás... Na época, só grandes investidores, empresários, ou produtores rurais que obtinham crédito via BNDES, conseguiam construir estes em- preendimentos vultosos... eu como estudante de graduação em Engenharia de Aquicultura e mesmo depois de recém-formado, o máximo que sonhava era em poder assessorar tecnicamente as melhores fazendas da região. Era intangível para nós, simples mortais, sermos proprietários destes projetos imponentes e lu- crativos. Era coisa para rico! Hoje em dia, estamos falando em um sistema de produção muito mais complexo, vários passos a frente do descrito no parágrafo anterior. Fazendas que requerem substancial conhe- cimento técnico, recursos suficientes para investimento e cus- teio, e alguns aventureiros por aí, através do YouTube e mídias sociais, vendem falsas esperanças para leigos no assunto, de que é possível ter um negócio de produção de camarão marinho, altamente tecnológico e até certo ponto futurístico, por qualquer R$ 100,00 ou R$ 200,00 de investimento... lamentável... Já combinei com o amigo Fábio Sussel, vamos combater estas falácias aquícolas. Artigos como este, significam apenas o início de um trabalho de esclarecimento que necessita ser feito. Vamos à luta, pelo bem da nossa querida aquicultura.