RelatórioFinal_PSSA | Page 107

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Vive há três meses numa casa abandonada localizada no edifício antigo da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Beja ( antiga ESTIG ). Antes vivia em casa de uma familiar direta localizada num bairro social da cidade de Beja . Resolveu sair , por considerar que não deveria sobrecarregar o seu contexto familiar . Vive , atualmente , « num espaço sem condições , partilhado com outras pessoas , alguns são portugueses e alguns são estrangeiros » ( E6 ). Ocupam , nesse edifício partilhado , espaços individuais . Na sua narrativa perpassam sentimentos de insegurança quando se refere aos cuidados que tem para manter a sua privacidade « tenho uma porta , guardo lá a minha roupa e nada de valor … uma vez cheguei lá e tinham arrombado com a porta , mas foi só para fazer mal , não tiraram nada » Colocou a porta com ajuda de um amigo , comprou um cadeado . Guarda nesse espaço os seus pertences . Nesse mesmo espaço diz ter um colchão que « é melhor que dormir no chão ». Pernoita nesse espaço há três meses . Receia de , em breve , ter de sair voltar a viver de forma ainda mais precária . Segundo ele ,
// « estive ao pé da ponte com a minha rapariga . Ela faleceu e quis sair de lá … qualquer dia terei de voltar para lá porque o espaço vai fechar … Lá não há casas de banho , é só lixo , não é limpo e quem lá vive também não tem cuidado de mandar as coisas para o balde do lixo . As pessoas que vivem lá ao lado , incomodam-se .» ( E6 )
A descrição remete para uma procura de condições mínimas que o aproximem de um padrão de normalidade , mesmo que temporária , ao invés de uma desistência de organizar o ‘ seu ’ espaço . Serve também para ‘ marcar ’ o seu território face aos outros ocupantes .
O segundo entrevistado ( E7 ) foi um indivíduo do sexo masculino , com 36 anos , detentor de um diploma de ensino preparatório ( atual 6 º ano ) que veio para Portugal , com os pais , da Guiné , com a idade de 6 anos . Vive há 30 anos em Portugal . Residia , no passado , num município da área metropolitana de Lisboa e vive , há cerca de 6 anos , em Beja . Veio para o Alentejo para trabalhar , através de uma proposta angariada por um amigo , para um lugar numa empresa de construção que estava , no passado , a construir uma obra na cidade de Beja . Trabalhou durante cinco anos para essa empresa e , após esse período , sem que alguma vez lhe tivesse sido feito um contrato , foi despedido ou , como referiu : ‘ deixaram de precisar dele ’. Ficou sem trabalho e sem hipótese de recorrer ao subsídio de desemprego . Encontra-se desempregado há um ano e tem conseguido apenas arranjar ‘ biscates ’ que não lhe permitem assegurar a sua subsistência e , sobretudo , pagar uma casa / quarto de forma continuada .
Também partilhou a condição de ocupante do antigo edifício da ESTIG durante um determinado período . Nesse período ficou ainda numa condição mais vulnerável por causa de um incidente que relatou .
// « Perdi carteira e fiquei sem documentos de saúde e de segurança social na altura em que estava a morar no edifício antigo da ESTIG , sai , e esqueci-me de levar a carteira , quando cheguei já não estava lá » ( E7 )
Caracterização do perfil das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo apoiadas pelo projeto " Estou tão perto que não me vês " e dos efeitos gerados pelo projeto nos seus percursos de vida - ALT20-06-4230-FSE-000039 – PROC 007 / 2022