Reflexões sobre Educação Volume 1 | Page 81

Reflexões sobre Educação – N º 01 – 2017
Poderíamos escrever muito sobre a pedagogia freireana. Sobre a compreensão dos processos de aprendizagem que Freire, a partir de uma longa caminhada que combinou teoria e prática, exemplarmente elaborou. Poderíamos nos estender ao descrever a trajetória admirável deste teórico, reconhecido mundialmente como um dos grandes teóricos da educação do século XX e vilipendiado por estultices como as observadas no site do ESP. Em razão dos limites deste artigo, apontamos duas inconsistências teóricas do ESP. Deixemos as outras para outro momento.
O último lócus em que se propõe a resoluta neutralidade no mundo do conhecimento é o ESP. A neutralidade, no âmbito científico, notavelmente nas ciências humanas 21, é uma quimera. Ao abordar um fenômeno histórico, por exemplo, é humanamente impossível restringir assepticamente o conteúdo, de modo que se possa atingi-lo com neutralidade. Imaginemos, caros leitores já enfastiados com a extensão deste artigo, uma aula sobre o nazismo, a Revolução Francesa ou a chamada Era Vargas. O historiador, para ministrá-la, seguramente estudou tais processos. Carrega leituras, impressões, eventualmente pré-conceitos, de sorte que resta impossível neutralizá-los. Impor a neutralidade é impor o silêncio.
Olvida o ESP que o ambiente escolar agrega uma profusão de atores que carregam convicções ideológicas, morais e éticas. Este movimento ignora que a vida pulsante da comunidade escolar decorre exatamente das diferenças que a constituem. A alteridade educa, e é no bojo das diferenças que o processo educativo acontece. Observando os objetivos do ESP, constata-se uma desconexão com a esta realidade. Não
21
Boaventura Sousa Santos alerta para a impossibilidade da neutralidade também nas chamadas ciências duras.
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