Reflexões sobre Educação – Nº 01 – 2017
construir um território de desenvolvimento cognitivo tam-
bém constrói o abismo, a morte e o sinistro diante do aluno e,
em grande parte, para com o aluno, pois esse, ao se preparar
para uma prova, por exemplo, é como se caminhasse para o
precipício, ele tanto pode ficar lá em cima paralisado como
pode cair no precipício e galgar um degrau a mais. Isso tem
um sinistro enorme. É uma presença de morte muito forte
onde o professor é o próprio carrasco.
Diante dessa presença ou expectativa, o próprio pavor
da morte pode levar o aluno a tomar decisões e estados de-
sanimadores e até de boicote do próprio conhecimento, isso
quando não desenvolve uma aversão ao professor. O fato de
saber que ela, a morte, está ali tão próxima pode atrair o alu-
no para um abismo. É muito comum ouvir de alunos: “não
vou estudar, já estou rodado mesmo”. Ou, “se não aprendi
até agora não vou aprender mais”. Nessas falas, fica clara a
entrega desses alunos para essa morte simbólica antes mes-
mo de experimentar a sensação e o devir da queda.
Outra forma muito comum dessa morte iminente é
quando o aluno produz algo a partir de seu entendimento e o
professor chama-lhe a atenção de forma negativa dizendo
que aquilo “não” está correto e apresenta sua própria forma
de resolver o problema. Isso faz com que todas as outras pos-
sibilidades de ser que o aluno acreditava se apaguem numa
espécie de ausência criativa onde nada mais será reescrito,
pois diante da dificuldade de satisfazer o gosto do professor
ele novamente se depara com a morte. É imprescindível en-
tender que tanto nas artes quanto na educação o movimento
criador será sempre um processo inventivo. Será sempre um
deslocamento e um movimento na direção do novo, do dife-
rente, de uma criação.
Página | 73
SMEC 2017