Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Desporto e Turismo
com o passado e, portanto, se apresenta sempre como nosso socorro quando entramos num por vir diferente.
Samuel Beckett, em escritos acerca do hábito, vai chamar a atenção para a negatividade do hábito enquanto lugar de criação e de aprendizagem criativa. O hábito, segundo ele, é o acordo efetuado entre o indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas que funciona como o para-raios de sua existência ou,“ como o lastro que acorrenta o cão a seu vômito”( BECKETT, 2003, p. 17). Segundo o autor, a vida do indivíduo se constitui de uma sucessão de hábitos e, assim sendo, o indivíduo é também uma sucessão de indivíduos. Dessa forma, é possível entender o hábito como um termo genérico para os inúmeros compromissos travados entre os diversos sujeitos que constituem o indivíduo e suas múltiplas faces correspondentes. O autor diz ainda que os períodos de transição que separam adaptações consecutivas representam as zonas de risco na vida do indivíduo, precárias, perigosas, dolorosas, misteriosas e férteis, quando por um instante o tédio de viver é substituído pelo sofrimento de ser à força do hábito( BECKETT, 2003).
Assim, o hábito se instaura em nosso corpo e por mais que pareça que está morto ou fadado a algum tipo de morte, ele está apenas adormecido e, quando menos esperamos, essas faculdades despertam e atuam em nós, em nosso socorro, agindo como tranquilidade, como bálsamo que nos acalma diante do sofrimento e da ansiedade provocada pelo novo, pelo devir. Beckett diz, ainda, que esse socorro, em alguns casos, nos é prejudicial, já que ao nos prestar auxílio, o hábito nos impede de inaugurar um novo período, uma nova etapa diferente, um período de transição e aprendizagem. Pois o“ eu” anterior resiste a mudanças e ao risco. Ele afirma também, que entre essa morte e esse nascimento do novo se constitui um período de uma realidade quase intolerável que