Pés no Chão Pés no Chão | Page 144

atividade tão pesada quanto puxar uma carroça. Escutar o texto lido é uma brisa. Ouvir um pouco da história a cada dia – à moda de uma novela –, um doce. E se a história for da Índigo, então… À época, a professora contou surpresa quando ouviu o primeiro “ué, hoje não vai ter leitura?”. Eis o ponto. Ou Érica e suas cúmplices acadêmicas agarravam o boi à unha ou perderiam a tal da janela de oportunidade. Foi um deus-nos-acuda, que aqui só cabe resumir. Num curto espaço de tempo os alunos passaram da audição para a composição. Escreveram perfis de seus bichos de estimação, foram eles mesmos ler em voz alta para idosos. Sobretudo, escreveram e-mails para aquela que se tornou o ídolo da turma, Índigo. Havia medo de que ela fosse uma daquelas divas entediadas, envolta em xales trazidos de um congresso de letras na Inglaterra – e sem a mínima vontade de falar com estudantes de um lugar chamado Colombo, a outra. Pois virou madrinha da molecada, servida com muito brigadeiro, cuca de banana, k-suco, sanduba com patê nas duas vezes em que visitou a escola, sendo recebida com honras de chefe de Estado. Segundo consta, sua vida se divide em “antes e depois da João Gueno”. Cá entre nós, muitos escritores nunca provaram de tamanho afeto de seus leitores. Quanto à professora de Português – a que ainda esses dias pediu que a turma achasse um texto sobre o bairro São Dimas –, não pode desfrutar do conforto de dar uma aulinha e se escafeder pra casa, ali perto. Na sua escola sempre tem novidade, mesmo quando a atividade segue uma receita de normalistas. É bom que se diga que Érica não está sozinha 144