atividade tão pesada quanto puxar uma carroça. Escutar o
texto lido é uma brisa. Ouvir um pouco da história a cada
dia – à moda de uma novela –, um doce. E se a história for
da Índigo, então… À época, a professora contou surpresa
quando ouviu o primeiro “ué, hoje não vai ter leitura?”.
Eis o ponto. Ou Érica e suas cúmplices acadêmicas
agarravam o boi à unha ou perderiam a tal da janela de
oportunidade. Foi um deus-nos-acuda, que aqui só cabe
resumir. Num curto espaço de tempo os alunos passaram
da audição para a composição. Escreveram perfis de seus
bichos de estimação, foram eles mesmos ler em voz alta
para idosos. Sobretudo, escreveram e-mails para aquela
que se tornou o ídolo da turma, Índigo.
Havia medo de que ela fosse uma daquelas divas
entediadas, envolta em xales trazidos de um congresso de
letras na Inglaterra – e sem a mínima vontade de falar com
estudantes de um lugar chamado Colombo, a outra. Pois
virou madrinha da molecada, servida com muito brigadeiro,
cuca de banana, k-suco, sanduba com patê nas duas vezes
em que visitou a escola, sendo recebida com honras de chefe
de Estado. Segundo consta, sua vida se divide em “antes
e depois da João Gueno”. Cá entre nós, muitos escritores
nunca provaram de tamanho afeto de seus leitores.
Quanto à professora de Português – a que ainda esses
dias pediu que a turma achasse um texto sobre o bairro São
Dimas –, não pode desfrutar do conforto de dar uma aulinha
e se escafeder pra casa, ali perto. Na sua escola sempre tem
novidade, mesmo quando a atividade segue uma receita de
normalistas. É bom que se diga que Érica não está sozinha
144