Pontivírgula - Edição Maio 2018 Pontivírgula - Edição Maio 2018 | Página 33

OPINIÃO

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Do Outro Lado da Muralha

Francisco Monteiro

Direitos Humanos na China

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O futuro e o acordo com o diabo

Com as rápidas mudanças no cenário político-económico mundial, a China pretende ser a nova grande potência, a par dos E.U.A. A China tem de se preparar para o futuro e, para tal, o presidente Xi Jinping tem a solução - o plano "One Belt, One Road" (OBOR). Este plano económico envolve um investimento chinês de um trilião de dólares em cerca de 70 países da Ásia, África e Europa. Este investimento visa desenvolver as infraestruturas destes países, como linhas-de-ferro, portos e aeroportos, estradas, oleodutos e gasodutos, bem como hospitais e escolas, entre outros. Parece ideal para países como o Paquistão ou o Iémen, que não têm apoio da comunidade internacional nem investimento estrangeiro, mas será tudo tão bom quanto parece?

Este é, talvez, o mais ambicioso projeto económico alguma vez feito por um único país. Os países que vão receber este investimento representam mais de 30% do PIB mundial e estão em zonas com interesses estratégicos para a China. Contudo, pode ser difícil perceber quais as vantagens para a China. Afinal, o país está a investir um trilião de dólares (e mais alguns na década vindoura) noutros países, mas em troca de quê? A RPC quer obter, acima de tudo, clientes para o excesso de produção, uma tática semelhante à utilizada pelos ingleses no séc. XIX. Estes países ficam com uma enorme dívida económica para com a China e, em troca, vão preferir comprar produtos chineses ao invés de outros, como produtos americanos. Deste modo, obtêm produtos baratos e infraestrutura nova, para além de mais empregos, enquanto a China os escraviza economicamente com a dívida e tem mercados para vender os excedentes de produção.

A maior vantagem para a China é, não obstante, política. A China reafirma-se com este plano como o grande poder na Ásia e na economia global, para além de se oferecer como alternativa aos E.U.A. a países como o Myanmar, Afeganistão ou Síria. Pode-se encarar esta iniciativa chinesa como o começo de um novo "império", desta vez baseado em dinheiro, investimento e dependências económicas, ao invés de colónias e dependências políticas. O problema é que os países que recebem o investimento não recebem os frutos imediatamente. O investimento tem várias cláusulas, como metade dos trabalhadores têm de ser chineses, ou décadas de concessões de utilização das infraestruturas à China, bem como para a extração de matérias-primas. Alguns países em África, sedentos de investimento estrangeiro, fizeram várias concessões de exploração de matérias-primas à China, em troca de alguma infraestrutura essencial, como redes elétricas e hospitais. Contudo, como a maioria dos trabalhadores são chineses e a matéria-prima é minada e enviada diretamente para a China, não vêm muito do lucro no seu país. Uma situação que certamente se irá repetir nos próximos anos com os outros países do OBOR.

« (...) começo de um novo "império", desta vez baseado em dinheiro, investimento e dependências económicas»