Pedras e Demônios pd53 | Page 96

que ainda persiste a falsa crença que país avançado, com expres- sivo produto interno em relação à população, é país densamente industrializado. Os casos da Austrália e Chile mostram que parte expressiva da renda nacional pode ser gerada nos setores primário e terciário. Entretanto, o modelo de modernização tecnológica da agricul- tura brasileira não pode ser mecanicamente transplantado para a indústria, visto que o setor agropecuário é menos concentrado, com menos barreiras à entrada, sendo comum ter-se no mesmo as forças de mercado como determinante principal da mudança téc- nica, teorias da demand pull, vis à vis às influências derivadas da visão da oferta tecnológica como um impulso autônomo ou quase autônomo, teorias do technology push. Dizendo de outro modo, o que vale para o setor agropecuário, uma empresa estatal que gera e difunde inovações, não se aplica mecanicamente ao setor secun- dário. (BAIARDI, 2011). A partir dos anos cinquenta do século passado, quando a indústria passou a ser a maior responsável pelo crescimento do PIB brasileiro, o que só deixa de acontecer nestes últimos anos graças ao dinamismo do agronegócio, as mudanças técnicas res- ponsáveis pela modernização dos processos produtivos resultaram de um mix de medidas como aquisição de know-how, importação de bens de capitais e investimentos diretos e neste conjunto teve diminuto papel a P&D in house, o que demonstra inequivocamente os dados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), criada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, e divulgada a cada três anos. No último balanço realizado pelo Minis- tério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), em Brasília, a diretora de Estudos e Políticas Setoriais de Inova- ções e Infraestrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernanda De Negri (De NEGRI; SQUEFF, 2016), defendeu o aprimoramento da PINTEC, a fim de identificar o motivo pelo qual a inovação no Brasil “não decola”, não obstante o aperfeiçoamento das políticas públicas da área de ciência, tecnologia e inovação, como a criação da Lei do Bem, da Lei da Inovação, do Novo Marco Regulatório de C&T&I e o aumento da oferta de linhas de crédito pela Finep e BNDES. Em suma, é possível concluir que a industrialização do Brasil a qualquer custo, que segundo Baiardi (2016) tem início na metade do século passado, não dependeu de conhecimento autóctone e não dependeu de R&D in house. A aquisição de bens capitais (máquinas e equipamentos) ainda é a principal inovação do setor industrial e o 94 Amilcar Baiardi