acima de 12% e grande capacidade ociosa, a taxa real de juros
ainda é mais do dobro da taxa de crescimento. Como não poderia
deixar de ser, a relação dívida/PIB tem crescido e se aproxima de
níveis considerados insustentáveis pelo consenso macrofinanceiro.
O diagnóstico não depende do arcabouço macroeconômico ado-
tado, é claro e irrefutável: as contas públicas estão em desequilíbrio
crescente e a relação dívida/PIB vai continuar a crescer e superar
os 100% em poucos anos. Já o desenho das políticas a serem ado-
tadas para sair da situação em que nos encontramos é completa-
mente diferente, caso se adote a visão macroeconômica conven-
cional ou um novo paradigma. O velho consenso exige o corte a
despesas, a venda de ativos estatais, a reforma da Previdência e o
aumento dos impostos, para reverter o déficit público e estabilizar
a relação dívida/PIB. É o roteiro do governo Bolsonaro sob a lide-
rança do ministro Paulo Guedes. A partir de um novo paradigma,
compreende-se que o equívoco vem de longe.
A inflação brasileira tem origem na pressão excessiva sobre a
capacidade instalada, durante as três décadas de 1950 a 1980 de
esforço desenvolvimentista. Foi agravada pelo choque do petró-
leo na primeira metade da década de 1970, quando adquiriu uma
dinâmica própria, alimentada pela indexação e pelas expectati-
vas desancoradas. Altas taxas de inflação crônica têm uma forte
inércia, não podem ser revertidas apenas através do controle da
demanda agregada, com objetivo de provocar desemprego e capa-
cidade ociosa. Para quebrar a inércia é preciso um mecanismo de
coordenação das expectativas.
No Plano Real, esse mecanismo foi a URV, uma unidade de conta
sem existência física, corrigida diariamente pela inflação corrente.
A URV foi uma unidade de conta oficial virtual, com poder aquisi-
tivo estável, uma moeda plena na acepção Cartalista, que viabilizou
estabilização da inflação brasileira. Quando a URV foi introduzida,
a economia não crescia, havia desemprego e capacidade ociosa. A
causa da inflação não era mais o gasto público nem o excesso de
demanda. Quando se compreende que o governo emissor não tem
restrição financeira, fica claro que não havia necessidade de equi-
librar as contas públicas para garantir a estabilidade da moeda. A
criação do Fundo de Estabilização Social e posteriormente a apro-
vação da Lei de Responsabilidade Fiscal apenas satisfizeram as exi-
gências do consenso macroeconômico e financeiro da época.
Como se acreditava na necessidade de equilíbrio financeiro do
governo, para garantir a consolidação da estabilização, a carga
A crise da macroeconomia
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