Pedras e Demônios pd53 | Page 76

área de segurança, decretada pelo ex-presidente Michel Temer, em fevereiro do ano passado. Para os operadores do direito, é difícil chegar ao fim do relatório sem constrangimento. Para um cidadão de bem, é quase impossível conter a indignação e as lágrimas. A matriz das violações policiais, montada a partir dos depoi- mentos dos moradores, está carregada de violência e discrimina- ção contra a parcela da população mais pobre. Os relatos reúnem denúncias de estupro, extorsão, execução, espancamento, roubo e corrupção, crimes que teriam sido cometidos por agentes de segu- rança no cumprimento de suas atribuições. A legislação atual é igualmente incapaz de proteger o cidadão tanto do crime quanto do mau policial. Mais do que carta branca, a proposta que amplia o conceito de legítima defesa do policial funcionará como um estímulo à matança. Na prática, transforma-se o policial em juiz, dando a ele poder de condenar e executar. Os dados oficiais mostram que a polícia não precisa de licença para matar. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, entre janeiro e novembro do ano pas- sado, 1.444 pessoas foram mortas por policiais, um aumento de 39% em comparação ao mesmo período de 2017. Por outro lado, é absolutamente verdadeiro que o crime orga- nizado não respeita e enfrenta a polícia com armamento pesado. Causa revolta a perseguição e a morte de policiais e não se pode impedir que estes reajam diante da resistência armada. Mas a população e os policiais não estarão mais protegidos por ações arbitrárias e por execuções estimuladas e amparadas pelo poder público. Em vez de obscuridade e subjetividade, os policiais poderiam ter suas ações amparadas pelo uso da tecnologia. Em vários Estados americanos, por exemplo, o policial porta uma câmera individual e toda a sua ação é gravada. A transparência é a melhor forma de defesa do cidadão e do policial. Causa estranheza quando um poli- cial altera a cena de um confronto e comemora nas redes sociais o fato de ter matado uma pessoa. Se a operação tivesse sido gravada, seria possível entender a motivação e o desfecho do confronto. Sem acreditar na Justiça, sem contar com a proteção do Estado e ameaçada pelo crescimento da criminalidade, ano após ano, parcela expressiva da população apoia medidas como a execução sumária de criminosos e até de suspeitos. O projeto também pro- 74 Cleber Lopes