O fato é que instituições politicamente mais avançadas da cida-
de-estado renderam-se ao clientelismo das velhas elites do Estado
do Rio, que desconheciam o concurso público e a administração por
mérito que já vigoravam no Rio de Janeiro. A miscigenação de insti-
tuições administrativas foi um retrocesso e a cidade pagou caro por
esta intervenção que precipitou o seu esvaziamento econômico, tor-
nando-a mais impotente diante do descontrole urbano. A repartição
das despesas deteriorou a cidade e não melhorou o estado.
Por omissão federal, o Rio perdeu a Bolsa de Valores, a sede do
Banco Central, as empresas de publicidade e numerosas outras
que se transferiram para São Paulo ou para Brasília. Com a econo-
mia brasileira improdutiva e em crise, o casamento da fusão con-
verteu-se no “casamento da pobreza”. Ao invés da prosperidade e
da riqueza, recebemos em troca a favelização e a violência.
Do ponto de vista federativo, houve um dramático rebaixa-
mento, pois com a mudança da capital para Brasília, a cidade do
Rio de Janeiro foi reduzida à condição de ente estadual e, com a
fusão, quinze anos depois, converteu-se em simples município,
semelhante aos demais 5570 que existem em todo o país. Com a
presença importante do governo federal na cidade, as três com-
petências federativas se superpõem e se misturam ao sabor de
interesses eventuais, passando a coexistir em um caos institucio-
nal sem precedentes, a que nenhum território do mundo resistiria
durante tanto tempo.
O território do estado foi e continua sendo marcado por forte
presença federal. No entanto, as autoridades vêm se omitindo, a
décadas, de suas responsabilidades de proteção e segurança, a
começar por nossas fronteiras. As estradas federais estão desguar-
necidas e é precária a fiscalização dos aeroportos federais.
Nos anos que sucederam à fusão, há quarenta anos atrás, o
Rio despontou com uma vocação inusitada: a de capital do tráfico
de drogas e armas, sucursal do Cartel de Medellín. A metástase se
estendeu por nossas favelas, ocupando as vias públicas, sempre
beneficiando-se da omissão e da paralisia dos poderes constituí-
dos. Tudo se complicou mais ainda com a entrada das milícias –
nossos empresários às avessas, hoje empenhados em legalizar seus
investimentos clandestinos.
A desordem tem o seu preço, a confusão e a impunidade. Empre-
sas que atuam no estado não gostam de fazer licitações, como alerta
o general-interventor Braga Neto, porque crescem sob a proteção de
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Aspásia Camargo