Pedras e Demônios pd53 | Page 72

O fato é que instituições politicamente mais avançadas da cida- de-estado renderam-se ao clientelismo das velhas elites do Estado do Rio, que desconheciam o concurso público e a administração por mérito que já vigoravam no Rio de Janeiro. A miscigenação de insti- tuições administrativas foi um retrocesso e a cidade pagou caro por esta intervenção que precipitou o seu esvaziamento econômico, tor- nando-a mais impotente diante do descontrole urbano. A repartição das despesas deteriorou a cidade e não melhorou o estado. Por omissão federal, o Rio perdeu a Bolsa de Valores, a sede do Banco Central, as empresas de publicidade e numerosas outras que se transferiram para São Paulo ou para Brasília. Com a econo- mia brasileira improdutiva e em crise, o casamento da fusão con- verteu-se no “casamento da pobreza”. Ao invés da prosperidade e da riqueza, recebemos em troca a favelização e a violência. Do ponto de vista federativo, houve um dramático rebaixa- mento, pois com a mudança da capital para Brasília, a cidade do Rio de Janeiro foi reduzida à condição de ente estadual e, com a fusão, quinze anos depois, converteu-se em simples município, semelhante aos demais 5570 que existem em todo o país. Com a presença importante do governo federal na cidade, as três com- petências federativas se superpõem e se misturam ao sabor de interesses eventuais, passando a coexistir em um caos institucio- nal sem precedentes, a que nenhum território do mundo resistiria durante tanto tempo. O território do estado foi e continua sendo marcado por forte presença federal. No entanto, as autoridades vêm se omitindo, a décadas, de suas responsabilidades de proteção e segurança, a começar por nossas fronteiras. As estradas federais estão desguar- necidas e é precária a fiscalização dos aeroportos federais. Nos anos que sucederam à fusão, há quarenta anos atrás, o Rio despontou com uma vocação inusitada: a de capital do tráfico de drogas e armas, sucursal do Cartel de Medellín. A metástase se estendeu por nossas favelas, ocupando as vias públicas, sempre beneficiando-se da omissão e da paralisia dos poderes constituí- dos. Tudo se complicou mais ainda com a entrada das milícias – nossos empresários às avessas, hoje empenhados em legalizar seus investimentos clandestinos. A desordem tem o seu preço, a confusão e a impunidade. Empre- sas que atuam no estado não gostam de fazer licitações, como alerta o general-interventor Braga Neto, porque crescem sob a proteção de 70 Aspásia Camargo