Pedras e Demônios pd53 | Page 71

reu no início da República, quando o Rio foi compensado com o status especial de Cidade Maravilhosa, síntese da nacionalidade, cidade de todos os brasileiros, desde que abdicando de sua identi- dade própria. O feito repetiu-se sob a liderança de Pedro Ernesto, que lutou pela autonomia política da cidade, mas acabou nas mas- morras do Estado Novo. A dependência federal nos condenou, afi- nal, à condição de párias da federação brasileira. Erroneamente vistos como especiais e privilegiados, éramos e somos, na realidade, desprovidos de consciência regional e espírito de luta, que se forta- leceram nos outros estados durante a República Velha, enquanto nós outros éramos “nacionais”. Outra anormalidade foi o estranhamento que se criou entre a capital, seu entorno metropolitano e o isolado interior do Estado. Ao contrário do que ocorreu com o interior de São Paulo, a integra- ção econômica e política, sua logística, sua infraestrutura perma- necem até hoje relegadas por governadores sucessivos e por prefei- tos que se contentam com migalhas. Esse traumatismo econômico e social, que líderes importantes como Alberto Torres, Nilo Peçanha e Amaral Peixoto tentaram resgatar para o interior do Estado, ainda é muito próximo da Velha Província Fluminense. Desigualdades sociais extremas se perpetuam em nosso territó- rio, impedindo sua integração produtiva e o seu desenvolvimento. É um engodo acreditar que somos o segundo estado mais rico da federação. Estamos, na realidade, em quinto lugar no ranking da renda per capita. Tais disfunções em nossa base regional e territo- rial alimentam o desgoverno. A desgovernança federativa se agravou com duas intervenções federais invasivas e traumáticas: a transferência da capital federal para Brasília, em 1960; e a fusão em 1975. Ambas sem negocia- ção. Na redoma de Brasília acentuou-se ainda mais o isolamento federal. Isolou-se também o Rio de Janeiro que viu cassados os seus direitos de cidade-estado autônoma, fruto de uma intervenção inconstitucional e inédita, sem plebiscito ou consentimento popu- lar. O desastre contou com o apoio das subservientes elites locais, mas também sob o protesto do prefeito Israel Klabin, que renun- ciou ao seu mandato. A fusão ocorreu quando nuvens negras já sopravam sobre a economia brasileira e o dirigismo militar entrava em colapso, tor- nando disfuncional e injusto um casamento forjado com a intenção de criar um polo regional para equiparar-se ao do estado de São Paulo. Uma megalomania improvisada de fim de ciclo cujas pro- messas não foram cumpridas. Pacto federativo pelo estado do Rio de Janeiro 69