reu no início da República, quando o Rio foi compensado com o
status especial de Cidade Maravilhosa, síntese da nacionalidade,
cidade de todos os brasileiros, desde que abdicando de sua identi-
dade própria. O feito repetiu-se sob a liderança de Pedro Ernesto,
que lutou pela autonomia política da cidade, mas acabou nas mas-
morras do Estado Novo. A dependência federal nos condenou, afi-
nal, à condição de párias da federação brasileira. Erroneamente
vistos como especiais e privilegiados, éramos e somos, na realidade,
desprovidos de consciência regional e espírito de luta, que se forta-
leceram nos outros estados durante a República Velha, enquanto
nós outros éramos “nacionais”.
Outra anormalidade foi o estranhamento que se criou entre a
capital, seu entorno metropolitano e o isolado interior do Estado.
Ao contrário do que ocorreu com o interior de São Paulo, a integra-
ção econômica e política, sua logística, sua infraestrutura perma-
necem até hoje relegadas por governadores sucessivos e por prefei-
tos que se contentam com migalhas. Esse traumatismo econômico
e social, que líderes importantes como Alberto Torres, Nilo Peçanha
e Amaral Peixoto tentaram resgatar para o interior do Estado, ainda
é muito próximo da Velha Província Fluminense.
Desigualdades sociais extremas se perpetuam em nosso territó-
rio, impedindo sua integração produtiva e o seu desenvolvimento.
É um engodo acreditar que somos o segundo estado mais rico da
federação. Estamos, na realidade, em quinto lugar no ranking da
renda per capita. Tais disfunções em nossa base regional e territo-
rial alimentam o desgoverno.
A desgovernança federativa se agravou com duas intervenções
federais invasivas e traumáticas: a transferência da capital federal
para Brasília, em 1960; e a fusão em 1975. Ambas sem negocia-
ção. Na redoma de Brasília acentuou-se ainda mais o isolamento
federal. Isolou-se também o Rio de Janeiro que viu cassados os
seus direitos de cidade-estado autônoma, fruto de uma intervenção
inconstitucional e inédita, sem plebiscito ou consentimento popu-
lar. O desastre contou com o apoio das subservientes elites locais,
mas também sob o protesto do prefeito Israel Klabin, que renun-
ciou ao seu mandato.
A fusão ocorreu quando nuvens negras já sopravam sobre a
economia brasileira e o dirigismo militar entrava em colapso, tor-
nando disfuncional e injusto um casamento forjado com a intenção
de criar um polo regional para equiparar-se ao do estado de São
Paulo. Uma megalomania improvisada de fim de ciclo cujas pro-
messas não foram cumpridas.
Pacto federativo pelo estado do Rio de Janeiro
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