Pedras e Demônios pd53 | Page 70

Pacto federativo pelo estado do Rio de Janeiro Aspásia Camargo Fernanda Young pediu explicações sobre a nuvem negra que paira sobre o Rio de Janeiro, sob o comando de maus governado- res sucessivos, e se pergunta se esta situação pode continuar ou se agravar. A tentação de dar a este drama apenas uma conotação moral não se justifica, pois por trás da moral existe a maldição muito antiga, a do desgoverno. Tudo começou no início da Repú- blica e se agravou com a fusão do estado do Rio de Janeiro. Na rea- lidade, a culpa é de um pacto federativo às avessas, que se instalou entre os três níveis de governo que dividem em condomínio o poder no estado fluminense. Nas eleições estaduais de 2006, alertei o governador Sérgio Cabral sobre uma situação temerária que se repete: governadores eleitos, sempre com a ambição de chegar à Presidência da República, termi- nam os seus mandatos politicamente fracassados. Em suma, disse eu, o Palácio Guanabara é “um caixão sem alças”, túmulo de nossos políticos, pois nenhum deles escapou vivo ao governo do estado. O alerta continua valendo para o governador Wilson Witzel. A amoralidade não é monopólio dos que vivem no Rio de Janeiro, mas não resta dúvida que somos campeões nacionais de desgo- verno. Falta-nos governança federativa, começando pela questão singular da dupla identidade, aqui partilhada por cariocas e flu- minenses que não se misturam. Isto porque a Cidade Maravilhosa para onde todos convergiam em busca de holofotes e oportunidades era dissociada de seu entorno, mas sobretudo de si mesma. Administrada por prefeitos de fora, nomeados por influência política, a cidade do Rio sempre dependeu da boa vontade (e das benesses) do governo federal. Essa dependência atávica demarca nossa cultura-política que nos tornou, ao mesmo tempo, rebeldes e dóceis, mas sempre vulneráveis, sempre prontos a preterir nossos próprios interesses, vocações e potencialidades regionais, que até as universidades desconhecem. Durante muito tempo, éramos sempre derrotados ao tentar ele- ger pelo voto o prefeito do Rio de Janeiro. A primeira derrota ocor- 68 Aspásia Camargo