Pacto federativo pelo estado
do Rio de Janeiro
Aspásia Camargo
Fernanda Young pediu explicações sobre a nuvem negra que
paira sobre o Rio de Janeiro, sob o comando de maus governado-
res sucessivos, e se pergunta se esta situação pode continuar ou
se agravar. A tentação de dar a este drama apenas uma conotação
moral não se justifica, pois por trás da moral existe a maldição
muito antiga, a do desgoverno. Tudo começou no início da Repú-
blica e se agravou com a fusão do estado do Rio de Janeiro. Na rea-
lidade, a culpa é de um pacto federativo às avessas, que se instalou
entre os três níveis de governo que dividem em condomínio o poder
no estado fluminense.
Nas eleições estaduais de 2006, alertei o governador Sérgio Cabral
sobre uma situação temerária que se repete: governadores eleitos,
sempre com a ambição de chegar à Presidência da República, termi-
nam os seus mandatos politicamente fracassados. Em suma, disse
eu, o Palácio Guanabara é “um caixão sem alças”, túmulo de nossos
políticos, pois nenhum deles escapou vivo ao governo do estado. O
alerta continua valendo para o governador Wilson Witzel.
A amoralidade não é monopólio dos que vivem no Rio de Janeiro,
mas não resta dúvida que somos campeões nacionais de desgo-
verno. Falta-nos governança federativa, começando pela questão
singular da dupla identidade, aqui partilhada por cariocas e flu-
minenses que não se misturam. Isto porque a Cidade Maravilhosa
para onde todos convergiam em busca de holofotes e oportunidades
era dissociada de seu entorno, mas sobretudo de si mesma.
Administrada por prefeitos de fora, nomeados por influência
política, a cidade do Rio sempre dependeu da boa vontade (e das
benesses) do governo federal. Essa dependência atávica demarca
nossa cultura-política que nos tornou, ao mesmo tempo, rebeldes e
dóceis, mas sempre vulneráveis, sempre prontos a preterir nossos
próprios interesses, vocações e potencialidades regionais, que até
as universidades desconhecem.
Durante muito tempo, éramos sempre derrotados ao tentar ele-
ger pelo voto o prefeito do Rio de Janeiro. A primeira derrota ocor-
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Aspásia Camargo