jos, assim como as contradições destas correntes ideológicas, têm
que sofrer uma reinterpretação teórica, na qual a liberdade do indi-
víduo, a tolerância e o direito à vida digna sejam pedras fundamen-
tais da sociedade, garantidas pelas suas leis.
O Brasil
O caso do Brasil, onde um partido de esquerda, herdeiro dessa
corrente histórica socialista (um herdeiro mal-ajambrado, é ver-
dade), governou por 14 anos, finalizando seu capítulo com um
impeachment e a prisão, por corrupção, de seu principal líder, acir-
rou uma polarização avassaladora, na qual um líder de extrema
direita se elege, surfando numa onda de irracionalidade antipe-
tista. A extrema direita é herdeira da famigerada corrente ideoló-
gica nacionalista, que ressurge em contraposição aos atentados
terroristas do fundamentalismo islâmico, atingindo o coração do
mundo civilizado ocidental.
É certo que seu líder, Bolsonaro, foi convencido da importân-
cia da política econômica neoliberal, um capitalismo moderno, daí
uma expectativa positiva no campo da economia, em que pesem os
absurdos, por parte do seu núcleo mais próximo, com uma visão
perigosamente medieval sobre os costumes e os direitos universais
da diversidade humana.
Mitos
E onde fica o cidadão brasileiro nesta história?
Há uma componente operacional das ideologias políticas, iguais
às religiosas, que é a necessidade de líderes carismáticos, cujos
discurso e aparência vêm ao encontro dos anseios deste cidadão,
capturando-o numa relação de submissão identitária ao mesmo
tempo perigosa – posto que o afeto destitui a razão do sujeito – e
nefasta, pois quase sempre seus resultados são antidemocráticos,
marcados por uma certeza cega, calcada na rejeição ao outro que
pensa e age diferente.
A intolerância, mãe da bestialidade, emerge esmagando a rica
diversidade humana, fragilizando o ambiente democrático.
O Brasil, portanto, está experimentando, em poucas décadas, os
dois infernos: um mito de esquerda, e agora um mito de extrema
direita, ambos com narrativas e práticas antidemocráticas – isto sem
falar na corrupção do partido do primeiro como política de Estado,
algo que demanda outro corte: o de elite política, patrimonialismo de
Estado e sociedade civil, o qual não é objeto destas reflexões.
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João Rego