coberta tão importante como a de Galileu, que a única mercadoria
que gerava valor por si mesma era a força de trabalho dos homens
e, portanto, nada mais justo que estes – os proletários – detivessem
o controle do Estado, gerindo sua riqueza.
O século XX
Foi marcado por esta divisão ideológica, cindindo o mundo em
dois blocos: o socialista e o capitalista. Um dilema – evidentemente
sem falar nas milhares de mortes tentando implantar um novo tipo
de sociedade, de onde emergiria um novo homem –, que afligia o
socialismo, era que o Estado precisava ser necessariamente autori-
tário, para poder remover para o “lixo da História” séculos e sécu-
los de injustiça e dominação cruéis. Do outro lado, o capitalismo
flanava célere na sua marcha batida da produção industrial e tec-
nológica, em ambientes, digamos, com mais liberdade, posto que a
democracia e suas eleições autorregulavam a natureza despótica
do homem no poder.
Ainda no século XX, surge uma terceira variável, com um poder
demoníaco para embaralhar mais esse cenário: a ideologia nacio-
nalista, cadela mãe que pariu o nazismo e o fascismo. O saldo, com
a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais, foi 9 milhões de mortos e 30 milhões
de feridos, na primeira; e 47 milhões de mortos, na segunda, sendo
que destes, cerca de 6 milhões foram executados no Holocausto – a
versão “mais aperfeiçoada” do inferno e da bestialidade que o ser
humano é capaz de fazer contra seus semelhantes.
Após a 2ª Guerra Mundial, vem a Guerra Fria entre as forças
hegemônicas dos dois blocos: os Estados Unidos, do lado capita-
lista e democrático, com sua política de dominação imperialista; e
a União Soviética, regendo com mão de ferro seu bloco de países
socialistas, também com sua política de expansão territorial, até
que, em meados dos anos oitenta, o Bloco Socialista começa a ruir,
findando-se em 1989, com a queda do Muro de Berlim, e 1991, com
a dissolução da URSS.
A partir daí a democracia se impôs como um valor universal, ou
seja, todas as ideologias agora teriam que conceber suas visões de
mundo, suas estratégias de poder e suas políticas públicas trans-
formadoras da realidade social sob a égide da democracia.
É uma frase curta, “Democracia como Valor Universal”, mas
que carrega em seu bojo um enorme significante histórico. Repre-
senta uma importante passagem, um salto de qualidade do nosso
processo civilizatório. Isto não significa a entrada no paraíso, pois,
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João Rego