Pedras e Demônios pd53 | Page 56

coberta tão importante como a de Galileu, que a única mercadoria que gerava valor por si mesma era a força de trabalho dos homens e, portanto, nada mais justo que estes – os proletários – detivessem o controle do Estado, gerindo sua riqueza. O século XX Foi marcado por esta divisão ideológica, cindindo o mundo em dois blocos: o socialista e o capitalista. Um dilema – evidentemente sem falar nas milhares de mortes tentando implantar um novo tipo de sociedade, de onde emergiria um novo homem –, que afligia o socialismo, era que o Estado precisava ser necessariamente autori- tário, para poder remover para o “lixo da História” séculos e sécu- los de injustiça e dominação cruéis. Do outro lado, o capitalismo flanava célere na sua marcha batida da produção industrial e tec- nológica, em ambientes, digamos, com mais liberdade, posto que a democracia e suas eleições autorregulavam a natureza despótica do homem no poder. Ainda no século XX, surge uma terceira variável, com um poder demoníaco para embaralhar mais esse cenário: a ideologia nacio- nalista, cadela mãe que pariu o nazismo e o fascismo. O saldo, com a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais, foi 9 milhões de mortos e 30 milhões de feridos, na primeira; e 47 milhões de mortos, na segunda, sendo que destes, cerca de 6 milhões foram executados no Holocausto – a versão “mais aperfeiçoada” do inferno e da bestialidade que o ser humano é capaz de fazer contra seus semelhantes. Após a 2ª Guerra Mundial, vem a Guerra Fria entre as forças hegemônicas dos dois blocos: os Estados Unidos, do lado capita- lista e democrático, com sua política de dominação imperialista; e a União Soviética, regendo com mão de ferro seu bloco de países socialistas, também com sua política de expansão territorial, até que, em meados dos anos oitenta, o Bloco Socialista começa a ruir, findando-se em 1989, com a queda do Muro de Berlim, e 1991, com a dissolução da URSS. A partir daí a democracia se impôs como um valor universal, ou seja, todas as ideologias agora teriam que conceber suas visões de mundo, suas estratégias de poder e suas políticas públicas trans- formadoras da realidade social sob a égide da democracia. É uma frase curta, “Democracia como Valor Universal”, mas que carrega em seu bojo um enorme significante histórico. Repre- senta uma importante passagem, um salto de qualidade do nosso processo civilizatório. Isto não significa a entrada no paraíso, pois, 54 João Rego