Por conta desta soma de crises, precisamos urgentemente de um
estadista que seja capaz de ter três qualidades. A primeira é pensar
além do seu mandato. Isto envolve, de um lado, levar em conta o
projeto de nação inscrito em nossa história e reforçado pela Cons-
tituição de 1988. Um rompimento brusco com o que, arduamente,
construímos poderá enfraquecer as bases mais sólidas do país.
Por outro lado, o momento exige um estadista capaz de explicar
ao país quais são as medidas necessárias para termos um futuro
melhor. Em alguns aspectos, isto significará muita gritaria de
vários grupos, incluindo bolsonaristas, e uma provável perda de
popularidade. Mas é preciso que o presidente Bolsonaro saiba que,
sem fazer alterações profundas nas políticas públicas, em pouco
tempo ele também perderá legitimidade. Sem melhorar a situação
fiscal, ganhar a confiança da comunidade internacional em ques-
tões como o meio ambiente e os direitos humanos e iniciar um pro-
jeto que sinalize a melhoria da educação, não haverá Trump que
nos salve. E o alarme vai soar bem antes do fim do mandato.
A segunda qualidade de estadista diz respeito ao amplo diálogo
com as principais forças políticas e sociais do país. Este predicado
será necessário para, primeiramente, legitimar e aprovar reformas
difíceis, que não vão parar na Previdência. A estratégia de atropelar
o mundo político e de jogar a culpa nos adversários não dará certo.
Governos de outra linha ideológica tentaram fazer isso e só provo-
caram mais crise.
A maior abertura ao diálogo é fundamental, ademais, para redu-
zir a polarização política. Cabe lembrar que o que pode ser útil para
ganhar uma eleição pode ter o efeito contrário quando se é governo.
Alimentar a divisão do país, por meio de guerras culturais e contí-
nua provocação dos adversários, só vai atrapalhar a realização de
mudanças estruturais do Estado. Um exemplo: muitos implemen-
tadores das políticas públicas podem não ter votado no presidente
e caso se sintam alijados ou forem xingados, nada os fará cooperar.
Além disso, o presidente Bolsonaro deveria ouvir mais outros
grupos sociais que ultrapassem seu círculo de apoiadores, pois,
diga-se a verdade, seu plano de governo era bastante incompleto,
dado que não tinha o diagnóstico de vários problemas do país. Ele
precisará agregar mais informações e soluções que não estavam
colocadas no processo eleitoral. Imerso numa imensa crise, o Brasil
precisa agora de alguém que, em alguma medida, junte os diferen-
tes e disso obtenha maior força e legitimidade políticas.
O Brasil precisa de um estadista
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