Pedras e Demônios pd53 | Page 48

O rol de qualidades do estadista se completa com o exercí- cio de liderança em tempos difíceis. Em situações assim, grande parte do capital político obtido com a eleição será gasta. Para que este processo seja mais eficiente, Bolsonaro precisa definir de que maneira irá convencer as pessoas e os grupos políticos da urgência das mudanças mais duras. O presidente pode e deve descentralizar várias decisões governamentais para gestores competentes. Mas os temas mais complexos e polêmicos devem ser liderados por ele. A liderança de um estadista também se mede por sua capaci- dade de arbitrar conflitos e avaliar as decisões de seus subordi- nados. Muitas confusões ocorreram em pouco tempo de governo, concentradas em alguns ministérios, e aparentemente o presidente esteve alheio à maioria delas. No fundo, a impressão que se tem é que Bolsonaro ainda não tem uma ideia clara de quais são as prio- ridades do país e que futuro imagina para as principais áreas de políticas públicas. Sua inexperiência no Executivo e a falta de um grupo político mais orgânico e preparado para os desafios do poder explicam esse quadro de incerteza decisória. Claro que o presidente pode optar por um outro caminho, acre- ditando, erroneamente, que só deve responder a um grupo sectário que o apoiou desde o início. Se seguir esta trilha, todo o restante, num tempo menor do que se imagina, vai abandoná-lo, e a grande maioria estará do lado contrário de Bolsonaro. O tempo é de mudar o padrão de liderança, antes que o presidente descubra a verda- deira solidão do Palácio do Planalto, olhando para os retratos de Jânio, Collor e Dilma. 46 Fernando Abrucio