O rol de qualidades do estadista se completa com o exercí-
cio de liderança em tempos difíceis. Em situações assim, grande
parte do capital político obtido com a eleição será gasta. Para que
este processo seja mais eficiente, Bolsonaro precisa definir de que
maneira irá convencer as pessoas e os grupos políticos da urgência
das mudanças mais duras. O presidente pode e deve descentralizar
várias decisões governamentais para gestores competentes. Mas os
temas mais complexos e polêmicos devem ser liderados por ele.
A liderança de um estadista também se mede por sua capaci-
dade de arbitrar conflitos e avaliar as decisões de seus subordi-
nados. Muitas confusões ocorreram em pouco tempo de governo,
concentradas em alguns ministérios, e aparentemente o presidente
esteve alheio à maioria delas. No fundo, a impressão que se tem é
que Bolsonaro ainda não tem uma ideia clara de quais são as prio-
ridades do país e que futuro imagina para as principais áreas de
políticas públicas. Sua inexperiência no Executivo e a falta de um
grupo político mais orgânico e preparado para os desafios do poder
explicam esse quadro de incerteza decisória.
Claro que o presidente pode optar por um outro caminho, acre-
ditando, erroneamente, que só deve responder a um grupo sectário
que o apoiou desde o início. Se seguir esta trilha, todo o restante,
num tempo menor do que se imagina, vai abandoná-lo, e a grande
maioria estará do lado contrário de Bolsonaro. O tempo é de mudar
o padrão de liderança, antes que o presidente descubra a verda-
deira solidão do Palácio do Planalto, olhando para os retratos de
Jânio, Collor e Dilma.
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Fernando Abrucio