Sendo mais direto: o Brasil não pode gastar com a Previdência
o volume de recursos em relação PIB que gasta hoje, mas não pode
deixar para trás os desvalidos urbanos e rurais que não tiveram
igualdade de oportunidades no ponto de partida, sobretudo do ponto
de vista da educação, ou que tenham problemas de saúde graves. Há
muita coisa para mudar no modelo previdenciário do setor público,
no ajuste mais parcimonioso do país à sua demografia e nos genero-
sos subsídios às empresas ou mesmo à classe média.
O ponto mais nevrálgico, no entanto, é a crise política. O ali-
cerce do sistema partidário por mais de 20 anos foi destruído, sem
que algo em seu lugar fosse colocado. O processo de renovação
que ocorreu é muito mais heterogêneo, inorgânico e frágil do que
pode pensar a vã filosofia dos crentes na reforma moral do país. O
Congresso não tem hoje uma coluna vertebral, e o partido do presi-
dente, além de francamente minoritário, é composto por neófitos na
política, incapazes de entender a profundidade da crise e os seus
remédios. Brincam de propor a Escola sem Partido, a mudança for-
çada da composição do STF e outras bobagens. Estão muito distan-
tes de um diagnóstico sério, que envolva não só o entendimento dos
problemas do país, mas também que busque ainda inspiração na
experiência internacional bem-sucedida. Esta dispersão temática
só vai atrapalhar a busca do essencial.
O amadorismo político, na verdade, começa no Executivo. Desde
a redemocratização, nunca se viu um fosso tão grande entre o Palá-
cio do Planalto e as duas Casas Legislativas. Continuar usando
a estratégia da campanha eleitoral como forma de convencer os
congressistas é desastroso em termos de efetividade política. O pre-
sidente Bolsonaro tem que montar uma maioria parlamentar para
aprovar reformas constitucionais, e isso exige construir uma coa-
lizão, ou para usar uma palavra mais adequada ao bolsonarismo,
um casamento partidário. É o que ocorre em todas as democra-
cias multipartidárias, algo mais complexo no Brasil por conta da
enorme fragmentação partidária.
Para piorar, a crise política pode ficar mais ampla, tornando-se
geopolítica. A forma como o Brasil tem se comportado nos últimos meses
no cenário internacional é, no mínimo, temerária. O sucesso do país sem-
pre esteve atrelado, embora de diferentes formas no tempo, à sua posição
moderada e cooperativa em relação a diversos atores estrangeiros, sejam
países ou organismos multilaterais. Mas o chanceler quer dar um cavalo
de pau e colocar o Brasil numa cruzada de transformações semelhantes
ao pós-Segunda Guerra Mundial. Esta ousada aposta aumenta a incer-
teza sobre nosso futuro nos próximos anos.
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Fernando Abrucio