O Brasil precisa de um estadista
Fernando Abrucio
O
momento grave do país exige uma liderança presidencial
muito especial, com qualidades maiores do que a de líderes
populares ou partidários. No período mais recente, nunca a
palavra estadista foi tão perfeita para uma situação histórica em
que o presidente terá de orientar suas ações pelos interesses maio-
res do Estado brasileiro. Mas se Bolsonaro preferir se guiar por
uma visão mais sectária, atuando apenas segundo a opinião de
seus próximos e incentivando o clima de guerra contra os que não
pensam exatamente como ele, o Brasil não sairá da crise.
Antes de entender que qualidades um estadista deveria ter agora,
é preciso mostrar por quais razões um líder com tais predicados seria
mais urgente neste momento. A resposta mais ampla é a confluência
de várias crises no mesmo ponto da história, numa intensidade e
combinação raras, uma verdadeira tempestade perfeita.
A primeira crise é a econômica. Ela não pode ser representada
apenas pelo baixo crescimento e enorme desemprego. Por trás de
tudo isso, há a necessidade de reformar grande parte do modelo
econômico, dando maior solvência fiscal ao Estado, melhorando a
competitividade da economia, fortalecendo os pilares da produti-
vidade (principalmente em termos educacionais) e garantindo um
mercado de trabalho que gere mais e melhores empregos.
Não será nada fácil, pois transformação de tal envergadura exi-
girá mudanças legislativas difíceis, como as reformas da Previdência
e do sistema tributário, além de um processo intrincado de imple-
mentação – por exemplo, quem vai formular e executar as melhorias
na educação necessárias para qualificar o capital humano?
Mas a crise econômica não pode ser descolada da dinâmica social
brasileira. A característica mais marcante do país é a desigualdade, e
reformar o Estado sem levar em conta isto é mais do que uma falta de
sensibilidade. É um passo para o precipício. A tarefa é árdua porque
teremos de, a um só tempo, garantir a solvência do Estado sem piorar
a vida dos mais pobres do país. Olhar apenas para um lado levará
a dois fins trágicos: ou será o caminho para inviabilizar as políticas
públicas porque não teremos dinheiro para tal, ou será a trilha para
deslegitimar o governo frente à maior parcela da população.
O Brasil precisa de um estadista
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