Pedras e Demônios pd53 | Page 44

país precisa, não de polêmicas que nada mudam nem enriquecem a discussão política. Polêmica que vale a pena Felizmente, há alguns corajosos, como André Lara Resende, principal formulador da reforma monetária que criou o Real. Ele ousou fazer no Brasil a discussão do tema macroeconômico mais quente nos EUA – a “teoria monetária moderna” ou MMT, no acrô- nimo em inglês. A tese, que não é nova apesar da sigla, sustenta que países que se endividam na própria moeda e com inflação baixa não precisam se prender a restrições orçamentárias. O foco que importa é ter taxa de juros do Banco Central sempre abaixo da taxa de cresci- mento nominal do PIB e tratar com medidas fiscais eventuais pres- sões sobre a inflação. Esta, sim, é polêmica das boas. Num mundo em que velhos paradigmas foram ou estão sendo desconstruídos pela tecnologia, não faz sentido a política econômica dominante ser tratada como dogma. Se ao menos ela fosse eficaz... mas, sinceramente, quem defende o que está aí? De dogmas e anacronismos Lara Resende faz um alerta pertinente: o risco de que “o apego a um fiscalismo dogmático e a um quantitativismo anacrônico” possa levar os liberais que comandam a economia “a voltar para casa mais cedo do que se imagina”. Travamos tal discussão há bom tempo, com a ênfase, de minha parte, nas disrupções em curso pela tecnologia. O ministro Paulo Guedes tem, em seu entorno, técnicos que conhecem o poder das transformações, sobretudo da inteligência artificial, campo em que se opõem EUA e China sob o disfarce de uma guerra comercial. Não há futuro sem presença relevante nas inovações tecnoló- gicas, que abarcam tudo, das comunicações à agricultura. Mas sem crescimento nem empregos, educação eficiente e setor público governado não há nem por onde começar. Esta ficha caiu na Câmara. Falta o governo despertar. 42 Antonio Machado