Pedras e Demônios pd53 | Page 31

tantes acerca de engajar-se ou não numa luta decisiva para defen- der aquela República? Um pouco de tudo isto? O fato é que, até hoje, a derrota das esquerdas carece de melhor compreensão. Muitos que apoiaram a instauração da ditadura a desejavam de curta duração. Ela eliminaria as forças de esquerda e as eleições do ano seguinte se realizariam. Aí houve uma surpresa. Os chefes mili- tares apropriaram-se do poder por longo tempo, afirmando a preemi- nência indisputada das corporações (Exército, Marinha e Aeronáu- tica). Daí ser exato conceituar o regime como uma ditadura militar. O primeiro governo ditatorial, chefiado pelo general Castelo Branco, apostou numa orientação liberal. A ideia era enterrar as heranças varguistas e a cultura política nacional-estatista. A aposta foi perdida. A propósito deste governo, brotou a formulação de que teria sido uma ditadura branda, uma “ditabranda”. Como então classificar, entre outras arbitrariedades, as prisões e cassações de direitos políticos e civis, as torturas acobertadas, a dis- solução dos partidos políticos, o fechamento do Congresso e a altera- ção arbitrária da legislação eleitoral? Recusar evidências não é rever a história, mas negá-la. É negacionismo, a eliminação da história. Os governos ditatoriais seguintes, principalmente no período Médici-Geisel (1969-1979), retomaram o parâmetro nacional-esta- tista, mas excluindo o povo. Isso não os impediu de conservar e ampliar apoios civis. Daí ter surgido a ideia de uma ditadura civil-militar, para apro- fundar a reflexão sobre as complexas relações entre a ditadura e a sociedade, e evidenciar as cumplicidades de segmentos civis, inclu- sive de camadas populares. Muito já se fez para desvendar essas cumplicidades, muito ainda há que se fazer para compreender como se comportaram os cidadãos comuns sob a ditadura. Mais pistas poderão daí advir para entender o “mito Bolsonaro”. A ditadura, porém, sempre suscitou oposições, moderadas e radicais. No grupo dos moderados estavam muitos apoiadores ini- ciais do golpe, depois decepcionados com os militares, e os que nunca aceitaram a ditadura, mas também não acreditavam em enfrentamentos violentos. Entre os radicais encontravam-se as cor- rentes revolucionárias, armadas, que tentaram derrotar os milita- res, destruir o capitalismo e construir uma sociedade alternativa. Almejavam uma ditadura revolucionária que asseguraria a transi- ção nos moldes do socialismo autoritário plasmado pela Revolução Russa e confirmado pelo exemplo cubano. A ditadura massacrou os radicais – com o uso e o abuso da tortura como política de Estado – e neutralizou os moderados, alguns dos quais Fantasmas à direita e à esquerda 29