tantes acerca de engajar-se ou não numa luta decisiva para defen-
der aquela República? Um pouco de tudo isto? O fato é que, até
hoje, a derrota das esquerdas carece de melhor compreensão.
Muitos que apoiaram a instauração da ditadura a desejavam de
curta duração. Ela eliminaria as forças de esquerda e as eleições do
ano seguinte se realizariam. Aí houve uma surpresa. Os chefes mili-
tares apropriaram-se do poder por longo tempo, afirmando a preemi-
nência indisputada das corporações (Exército, Marinha e Aeronáu-
tica). Daí ser exato conceituar o regime como uma ditadura militar.
O primeiro governo ditatorial, chefiado pelo general Castelo
Branco, apostou numa orientação liberal. A ideia era enterrar
as heranças varguistas e a cultura política nacional-estatista. A
aposta foi perdida. A propósito deste governo, brotou a formulação
de que teria sido uma ditadura branda, uma “ditabranda”.
Como então classificar, entre outras arbitrariedades, as prisões e
cassações de direitos políticos e civis, as torturas acobertadas, a dis-
solução dos partidos políticos, o fechamento do Congresso e a altera-
ção arbitrária da legislação eleitoral? Recusar evidências não é rever
a história, mas negá-la. É negacionismo, a eliminação da história.
Os governos ditatoriais seguintes, principalmente no período
Médici-Geisel (1969-1979), retomaram o parâmetro nacional-esta-
tista, mas excluindo o povo. Isso não os impediu de conservar e
ampliar apoios civis.
Daí ter surgido a ideia de uma ditadura civil-militar, para apro-
fundar a reflexão sobre as complexas relações entre a ditadura e a
sociedade, e evidenciar as cumplicidades de segmentos civis, inclu-
sive de camadas populares. Muito já se fez para desvendar essas
cumplicidades, muito ainda há que se fazer para compreender
como se comportaram os cidadãos comuns sob a ditadura. Mais
pistas poderão daí advir para entender o “mito Bolsonaro”.
A ditadura, porém, sempre suscitou oposições, moderadas e
radicais. No grupo dos moderados estavam muitos apoiadores ini-
ciais do golpe, depois decepcionados com os militares, e os que
nunca aceitaram a ditadura, mas também não acreditavam em
enfrentamentos violentos. Entre os radicais encontravam-se as cor-
rentes revolucionárias, armadas, que tentaram derrotar os milita-
res, destruir o capitalismo e construir uma sociedade alternativa.
Almejavam uma ditadura revolucionária que asseguraria a transi-
ção nos moldes do socialismo autoritário plasmado pela Revolução
Russa e confirmado pelo exemplo cubano.
A ditadura massacrou os radicais – com o uso e o abuso da tortura
como política de Estado – e neutralizou os moderados, alguns dos quais
Fantasmas à direita e à esquerda
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