Pedras e Demônios pd53 | Seite 30

Fantasmas à direita e à esquerda Daniel Aarão Reis A orientação do presidente Jair Bolsonaro para que unidades militares comemorassem, no dia 31 de março último, o golpe de 1964, que iniciou a ditadura no país, suscitou polêmicas que merecem análise mais equilibrada, evitando-se “histórias ofi- ciais” à direita e à esquerda. Vamos por partes. Em fins de março de 1964, instaurou-se no país uma ditadura através de um golpe de Estado. Trata-se de um fato objetivo. Um presidente legítimo, João Goulart, foi deposto pelas armas, ao que se seguiu um regime de exceção, em que o direito da força prima sobre a força do direito. Em outras palavras: em que a vontade do poder se sobrepõe, ou nega, à existência das leis, (re)criando legislações a seu bel-prazer. Entretanto, a ditadura não se tornou vitoriosa apenas pela ação militar. Foi um golpe civil-militar. Houve apoio social, que se expri- miu nas Marchas da Família com Deus e pela Liberdade no país, na força das tradições conservadoras e autoritárias. Naquele momento, encontramos as raízes que explicam, ao menos em parte, a ascensão atual da extrema direita no país. Além disso, dirigentes civis, políticos, empresários e religiosos participa- ram do golpe, além de instituições como a OAB (Ordem dos Advoga- dos do Brasil), a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e as principais mídias. A simpatia suscitada pelo golpe era consequência do medo de uma ditadura comunista. A chamada Guerra Fria, entre os EUA e a União Soviética, estava no auge. Na América Latina, a Revolução Cubana acontecera. No Brasil, um amplo movimento reformista propunha mudanças estruturais, visando à “democratização da democracia”. Aparentemente, havia ali um equilíbrio de forças, contribuindo para o acirramento das contradições. Assim, a vitória fulminante do golpe de 1964 foi uma surpresa, mesmo para os golpistas mais otimistas. Como compreender a derrota das esquerdas? Seria resultado de vacilações de suas lideranças mais importantes, que temeriam enfrentamentos imprevisíveis? De organizações populares muito dependentes do Estado e de suas iniciativas? De dúvidas de mili- 28 Daniel Aarão Reis