Pedras e Demônios pd53 | Page 28

costais, da expressividade em estado bruto do ressentimento social dos emergentes das novas camadas médias e da demagogia dos salvadores da pátria, que encontrou representação em um parla- mentar extraído das fileiras do baixo clero, um capitão sem brilho reformado do Exército. Esta mixórdia, a que se acrescentava a defesa dos valores tra- dicionais da família próprios ao patriarcalismo dominante no país pela movimentação crescente dos movimentos identitários de gênero, camuflava à perfeição o real sentido da operação política de grande envergadura orientada ao alinhamento do Estado aos inte- resses dos grandes interesses capitalistas das finanças e do mundo agrário, cuja representação será confiada ao ministro Paulo Gue- des. No plano da cultura e dos valores sociais, essa política visava erradicar o difuso sentimento anticapitalista socialmente vigente, natural numa sociedade cuja economia floresceu a partir do Estado e sempre dependente de suas iniciativas. Pretendeu-se com essa ampla e confusa orientação fazer a roda da história girar para trás, alinhando-se a política brasileira aos objetivos do presidente Trump e das resistências ao processo de globalização, potencialmente ameaçador à hegemonia americana nos negócios do mundo. Na verdade, o que se pode qualificar como a política de Trump não passa de uma tentativa de deter os pro- cessos que estão em curso no mundo e que sinalizam em favor da imposição de limites ao capitalismo e ao exercício da hegemonia americana na política mundial, cujos efeitos perversos já se fazem sentir na atual corrida armamentista, na questão ambiental e nos riscos de desaparição de espécimes vitais para a reprodução da vida humana. Não se pode ocultar que se vive em tempo sombrio. Mas há o outro da lua, até mesmo aqui. Nos Estados Unidos, o Partido Democrático se apresta em indicar um candidato que se oponha frontalmente a Trump, os resultados das recentes eleições euro- peias testemunham a existência de coalizões exitosas entre o campo liberal-democrático e a esquerda. A China vem-se tornando capaz, inclusive no campo da economia, de rivalizar com a hege- monia americana nos negócios do mundo. O cenário atual não está congelado e, por toda parte, há forças políticas e sociais motiva- das para alterá-lo. Aqui, já se pode perceber que a composição do governo atual não dá boa química, como se pode observar, entre tantos episódios, incluídos alguns afetos à corporação militar, sobretudo na participação do governo no pacto recentemente cele- brado entre a União Europeia e o Mercosul, na contramão da polí- 26 Luiz Werneck Vianna