costais, da expressividade em estado bruto do ressentimento social
dos emergentes das novas camadas médias e da demagogia dos
salvadores da pátria, que encontrou representação em um parla-
mentar extraído das fileiras do baixo clero, um capitão sem brilho
reformado do Exército.
Esta mixórdia, a que se acrescentava a defesa dos valores tra-
dicionais da família próprios ao patriarcalismo dominante no país
pela movimentação crescente dos movimentos identitários de
gênero, camuflava à perfeição o real sentido da operação política de
grande envergadura orientada ao alinhamento do Estado aos inte-
resses dos grandes interesses capitalistas das finanças e do mundo
agrário, cuja representação será confiada ao ministro Paulo Gue-
des. No plano da cultura e dos valores sociais, essa política visava
erradicar o difuso sentimento anticapitalista socialmente vigente,
natural numa sociedade cuja economia floresceu a partir do Estado
e sempre dependente de suas iniciativas.
Pretendeu-se com essa ampla e confusa orientação fazer a roda
da história girar para trás, alinhando-se a política brasileira aos
objetivos do presidente Trump e das resistências ao processo de
globalização, potencialmente ameaçador à hegemonia americana
nos negócios do mundo. Na verdade, o que se pode qualificar como
a política de Trump não passa de uma tentativa de deter os pro-
cessos que estão em curso no mundo e que sinalizam em favor da
imposição de limites ao capitalismo e ao exercício da hegemonia
americana na política mundial, cujos efeitos perversos já se fazem
sentir na atual corrida armamentista, na questão ambiental e nos
riscos de desaparição de espécimes vitais para a reprodução da
vida humana.
Não se pode ocultar que se vive em tempo sombrio. Mas há
o outro da lua, até mesmo aqui. Nos Estados Unidos, o Partido
Democrático se apresta em indicar um candidato que se oponha
frontalmente a Trump, os resultados das recentes eleições euro-
peias testemunham a existência de coalizões exitosas entre o
campo liberal-democrático e a esquerda. A China vem-se tornando
capaz, inclusive no campo da economia, de rivalizar com a hege-
monia americana nos negócios do mundo. O cenário atual não está
congelado e, por toda parte, há forças políticas e sociais motiva-
das para alterá-lo. Aqui, já se pode perceber que a composição do
governo atual não dá boa química, como se pode observar, entre
tantos episódios, incluídos alguns afetos à corporação militar,
sobretudo na participação do governo no pacto recentemente cele-
brado entre a União Europeia e o Mercosul, na contramão da polí-
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Luiz Werneck Vianna