sobre a sociedade no sentido de transformá-la. Com estes objetivos,
diante de uma sociedade conservadora, com suas elites senhoras
dos cordéis da vida econômica e detentoras do controle dos prin-
cipais meios de comunicação – o PT, ao contrário de Vargas, que
favoreceu a criação de um jornal de massas, a Última Hora, não
criou o seu. Seu enfrentamento com as elites seria confiado, funda-
mentalmente, aos movimentos sociais, dos tradicionais aos novos,
estes últimos, em geral, saídos dos emergentes movimentos iden-
titários.
Designei em artigo tal processo como o Estado Novo do PT pre-
tendendo qualificar a mutação que este partido conhecia em sua
história de críticas ao Estado e de valorização da sociedade civil
da qual passa a se descurar. Essa tendência se afirmou ao longo
do tempo, e, como se sabe, importou em perda da autonomia dos
movimentos e da sua capacidade de mobilização. Dilma Rousseff,
que sucede a Lula na sucessão presidencial, quadro político for-
mada no interior do Estado, sem história relevante nos movimen-
tos sociais, exaspera o papel do Estado na condução da economia,
vindo a afrontar as forças de mercado com que Lula sempre soube
negociar. Apeada por um impeachment de fundamentos obscu-
ros, o governo Temer que a sucede se aplica no favorecimento da
agenda portada pelas forças de mercado. A agenda do social sem as
escoras estatais que lhe serviam de sustentação e forças próprias
que a defendesse, vai-se tornar presa fácil, como ficou claramente
demonstrado com a aprovação congressual da reforma trabalhista.
De outra parte, a Operação Lava Jato, em nome da luta contra a
corrupção – agenda testada com êxito contra Vargas nos anos 1950
– levava ao pelourinho a classe política, rebaixando a dimensão da
política a uma atividade escusa. O sebastianismo, presença nunca
de todo erradicada em nossa sociedade, retorna com força no culto
endossado por amplos círculos sociais, inclusive intelectuais, a juí-
zes e promotores públicos à testa da Lava Jato, que se autoinves-
tem no papel de refundar a história do país. Nesse clima pouco
propício à democracia política são convocadas eleições gerais. Tra-
gicamente, mais uma vez, a esquerda se recusa a uma composição
com as forças do centro político, aferrada a uma candidatura de
Lula, a essa altura alvo preferencial da Lava Jato, que, condenado
em processo de provas controversas, não poderá concorrer.
Diante do deserto a que se tinha reduzido a política, a competi-
ção eleitoral se tornou pasto fácil a todos apetites, trazendo à tona
personagens obscuros e de história pregressa sem registro na vida
política. Esta foi a hora do empreendedorismo das religiões pente-
O desencontro trágico entre a fortuna e o ator na experiência brasileira
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