A época virtuosa do encontro entre a democracia política com
os portadores da questão social ficara para trás com o país e suas
estruturas econômicas e sociais ameaçadas por uma inflação cres-
cente cuja escalada parecia não ter fim. O governo Itamar, que
sucede ao de Collor, teve o mérito de procurar restaurar a política
de alianças da oposição ao regime militar, embora não tenha con-
tado com a participação do PT (a deputada federal Luiza Erundina,
do PT, que o apoiou foi punida por seu partido), lacuna que, no
entanto, não o impediu de assentar fundamentos para a recupera-
ção da economia e da estabilização político-institucional, e condu-
zir com sucesso sua sucessão presidencial com a candidatura de
Fernando Henrique Cardoso.
Fernando Henrique tinha uma história significativa no movi-
mento da resistência ao regime militar, exercendo a representação
do estrato dos intelectuais, quando estabeleceu pontos de comu-
nicação com as elites políticas aderentes ao liberalismo político e
com o sindicalismo, a essa altura já liderado por Luiz Inácio Lula
da Silva, e construiu sua candidatura e campanha presidencial em
aliança com um partido liberal, o PFL, que contava em seu histórico
com vários políticos remanescentes do regime militar. O candidato
foi lançado pelo PSDB, surgido poucos anos antes e de programa
social-democrata, embora não viesse a contar em suas bases com
representação efetiva do meio sindical e do mundo do trabalho em
geral, com a opção do PT de apresentar candidatura própria. A
social-democracia à brasileira nasce, assim, ao contrário de sua
inspiração europeia distante das classes subalternas e como uma
construção de intelectuais.
Seu governo se pautou pelo exercício de uma forte intervenção
modernizadora no campo da vida econômica, formulando e imple-
mentando, com sucesso, uma política de combate à inflação e de
redefinição do papel do Estado na economia, cujos êxitos lhe asse-
guraram, com facilidade, como sabido, a sua reeleição.
A forma frágil em que nascera a social-democracia entre nós a
condenara a uma morte prematura, e, assim, na sucessão seguinte,
abriu-se um caminho de oportunidade eleitoral para o PT, coro-
ando o lento e progressivo acúmulo de forças políticas e eleitorais,
sempre sob a liderança de Lula que, em nome da questão social,
se confrontara com todos os governos anteriores. A hora do social
havia chegado. Sob este signo, o governo e as políticas de Estado
deveriam agir no sentido de resgatar a imensa hipoteca social que
pesava no país. A correção dos males herdados das nossas origens
dependia de uma vontade política iluminada que soubesse intervir
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Luiz Werneck Vianna