Pedras e Demônios pd53 | Page 26

A época virtuosa do encontro entre a democracia política com os portadores da questão social ficara para trás com o país e suas estruturas econômicas e sociais ameaçadas por uma inflação cres- cente cuja escalada parecia não ter fim. O governo Itamar, que sucede ao de Collor, teve o mérito de procurar restaurar a política de alianças da oposição ao regime militar, embora não tenha con- tado com a participação do PT (a deputada federal Luiza Erundina, do PT, que o apoiou foi punida por seu partido), lacuna que, no entanto, não o impediu de assentar fundamentos para a recupera- ção da economia e da estabilização político-institucional, e condu- zir com sucesso sua sucessão presidencial com a candidatura de Fernando Henrique Cardoso. Fernando Henrique tinha uma história significativa no movi- mento da resistência ao regime militar, exercendo a representação do estrato dos intelectuais, quando estabeleceu pontos de comu- nicação com as elites políticas aderentes ao liberalismo político e com o sindicalismo, a essa altura já liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, e construiu sua candidatura e campanha presidencial em aliança com um partido liberal, o PFL, que contava em seu histórico com vários políticos remanescentes do regime militar. O candidato foi lançado pelo PSDB, surgido poucos anos antes e de programa social-democrata, embora não viesse a contar em suas bases com representação efetiva do meio sindical e do mundo do trabalho em geral, com a opção do PT de apresentar candidatura própria. A social-democracia à brasileira nasce, assim, ao contrário de sua inspiração europeia distante das classes subalternas e como uma construção de intelectuais. Seu governo se pautou pelo exercício de uma forte intervenção modernizadora no campo da vida econômica, formulando e imple- mentando, com sucesso, uma política de combate à inflação e de redefinição do papel do Estado na economia, cujos êxitos lhe asse- guraram, com facilidade, como sabido, a sua reeleição. A forma frágil em que nascera a social-democracia entre nós a condenara a uma morte prematura, e, assim, na sucessão seguinte, abriu-se um caminho de oportunidade eleitoral para o PT, coro- ando o lento e progressivo acúmulo de forças políticas e eleitorais, sempre sob a liderança de Lula que, em nome da questão social, se confrontara com todos os governos anteriores. A hora do social havia chegado. Sob este signo, o governo e as políticas de Estado deveriam agir no sentido de resgatar a imensa hipoteca social que pesava no país. A correção dos males herdados das nossas origens dependia de uma vontade política iluminada que soubesse intervir 24 Luiz Werneck Vianna