versa na Catedral, clássico da literatura latino-americana, indaga,
amargando a história do seu país, o Peru, quando foi que ele se
ha jodido. No nosso caso, talvez resposta a uma questão desse
tipo esteja no momento em que se abre a conjuntura da primeira
sucessão presidencial do novo regime democrático institucionali-
zado com a Carta de 88. Aqui o que faltou não foi a fortuna, que nos
sorria, mas o ator que, com suas ações desastradas, malbaratou as
oportunidades de que dispunha.
Findo o governo de transição, que foi o de Sarney, estava aberta
a primeira sucessão presidencial sob a égide da nova Constituição.
É aí, nesse momento de importância capital, que os atores políticos
abandonam suas práticas de alianças tão bem-sucedidas na hora
da resistência ao regime militar e dos trabalhos constituintes, par-
ticularmente entre a esquerda e os liberais, e passam a procurar
caminhos solitários. Vale lembrar que o hoje extinto PCB apresen-
tou à sucessão uma candidatura própria, refugando apoio à candi-
datura de Ulisses Guimarães, a maior liderança surgida nas lutas
pela democratização do país, comportamento que se reiterou no
PT. Selou-se, então, a fratura entre o campo do social e das forças
políticas liberais, fatal para o transcurso do processo que se segue.
Deslocado o eixo da política de alianças, o quadro político se
fragmenta e abre espaço para a passagem de cavaleiros da fortuna,
com a vitória eleitoral de Collor, um político de Alagoas sem regis-
tro na história da resistência ao regime militar. Doravante estavam
perdidos os fios de comunicação com a história dos movimentos e
lideranças que resistiram ao regime autoritário, quando se obscu-
rece a relevância do tema de um necessário aprofundamento das
instituições da democracia política.
O governo Collor durou pouco, inclusive por falta de sustenta-
ção congressual – ele foi eleito por um pequeno partido –, atalhado
por um impeachment com larga aceitação popular. Registre-se que
tanto para sua eleição – a denúncia dos marajás da República –
como para seu impedimento, os temas dominantes foram os que
se orientaram para as questões da corrupção de agentes estatais,
A dissociação entre as agendas do tema do social e da democracia
política, de armação complexa e altamente dependente do tirocínio
dos atores políticos, produziu, então, o resultado nefasto da ocu-
pação do campo da política pelas questões afetas à moralidade,
terreno fértil para a demagogia e para as disputas estéreis da com-
petição política esvaziada das questões substantivas atinentes aos
rumos do país. Fechava-se a cortina para a grande política.
O desencontro trágico entre a fortuna e o ator na experiência brasileira
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