Pedras e Demônios pd53 | Page 24

O desencontro trágico entre a fortuna e o ator na experiência brasileira Luiz Werneck Vianna N ão é a primeira vez que temos a desventura de nos encontrar numa situação como esta que aí está. Com o Estado Novo de 1937, que se prolonga até 1945, tem início este ciclo infernal que, com interrupções provocadas por movimentos democráticos – embora mesmo nesses momentos tenha permanecido de modo latente na vida institucional e política como se manifestou na ten- tativa do golpe militar para impedir a posse do presidente eleito JK. Inaugura-se outro ciclo com a intervenção militar de 1964, espe- cialmente após a imposição do AI-5, em 1969, que derrogou o que havia de democrático na Carta de 1946. Mais uma vez por força da resistência da sociedade, em 1985 a democracia ganhou nova oportunidade, apesar de sua volta não ter importado ruptura com o regime autocrático que até então vigia sob a institucionalidade do AI-5. Como se sabe, o caminho adotado foi o da transição política que abriu caminho para uma Assembleia Nacional Constituinte, restaurando-se as liberdades civis e públicas que o regime anterior tinha expurgado da política. A Constituição de 1988 teve a pretensão de sepultar as pos- sibilidades de retorno do autoritarismo político, afirmando uma forte adesão ao liberalismo e ao sistema da representação, robus- tecendo, de modo inédito, o Poder Judicial, por meio de novos ins- titutos como o mandato de injunção e com a recriação do papel do Ministério Público que será deslocado do eixo estatal, conforme antiga tradição, para o da sociedade civil, a quem foi confiado, entre outras, a missão de defesa da ordem jurídica e do regime democrá- tico, figura inexistente no direito comparado. Com a ressalva do PT, já um importante partido, influente no sindicalismo e com a auréola portada por seus dirigentes de ter con- duzido greves vitoriosas no regime militar, a nova Carta encontrou recepção positiva na sociedade. Estava aberta uma via real para a internalização da democracia política entre nós. As instituições eram propícias e o cenário internacional favorável, faltava a ação humana capaz de portar uma política que soubesse se aproveitar dos bons ventos da fortuna que a tinham levado a seus êxitos con- tra o regime militar. Vargas Llosa, nas primeiras páginas de Con- 22 Luiz Werneck Vianna