As pedras do caminho
Precisamos compreender como é que, num curto espaço de
tempo, conseguimos cair tão baixo, a ponto de não sabermos mais
o que unifica o país, quem governa e o que virá pela frente.
Tudo mudou demais no Brasil de 2018 para cá, em se tratando
de política e governo. Na verdade, o declínio começou antes, veio
dos anos Dilma, da crise que levou a seu impeachment, da desor-
ganização da economia, da impotência do período Temer, do mani-
queísmo que impregnou o debate político e fez com que fosse pelos
ares qualquer articulação consistente entre os democratas, liberais
e de esquerda.
A crônica tem sido abundante a este respeito. O que já estava
ruim ficou ainda pior com a eleição de Bolsonaro. O país enveredou
por uma trilha da qual não sabe como sair e que a cada dia fica
mais obscura. Há novos hábitos sendo cozinhados num caldeirão
que é revolvido por uma trupe de pessoas pouco qualificadas, sem
generosidade, fanatizadas por uma narrativa que não se imaginava
poder sair do submundo intelectual em que vicejava.
Vem daí o pasmo e a surpresa que se abateram sobre o campo
político laico e progressista, dos liberais democráticos às esquer-
das fundamentalistas, passando pela esquerda democrática. Estão
todos paralisados, com um grito preso na garganta, sem saber que
rumo tomar, como se opor ou resistir à onda direitista e fascis-
toide que ameaça se prolongar, misturada com um neoliberalismo
impreciso na economia e todo tipo de improvisações.
Tal onda segue a cavalo de um anticomunismo apoplético que
se articula com uma declarada, mas não esclarecida, “moralização
dos costumes”. Estabelece-se uma relação de causalidade entre
duas dimensões que nada têm entre si: o “comunismo” seria o cau-
sador da decadência moral da sociedade; seu materialismo, seu
desejo de poder, seus métodos de trabalho e seu caráter insidioso
estariam na base da desagregação da ordem social e da corrupção
das famílias, todas elas recatadas e tementes a Deus. Seria o caso
então de desconstruir os fundamentos do mal para, quem sabe,
mais à frente, construir algo novo. É assim que o novo grupo diri-
gente justifica sua inoperância governativa, sua falta de propostas
e suas trapalhadas.
A moralização pretendida quer repor uma ordem que teria sido
perdida, recuperar limites que teriam sido ultrapassados, enqua-
drar a diversidade social em um quadro unitário que ressoa auto-
Seis meses depois
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