Pedras e Demônios pd53 | Page 21

As pedras do caminho Precisamos compreender como é que, num curto espaço de tempo, conseguimos cair tão baixo, a ponto de não sabermos mais o que unifica o país, quem governa e o que virá pela frente. Tudo mudou demais no Brasil de 2018 para cá, em se tratando de política e governo. Na verdade, o declínio começou antes, veio dos anos Dilma, da crise que levou a seu impeachment, da desor- ganização da economia, da impotência do período Temer, do mani- queísmo que impregnou o debate político e fez com que fosse pelos ares qualquer articulação consistente entre os democratas, liberais e de esquerda. A crônica tem sido abundante a este respeito. O que já estava ruim ficou ainda pior com a eleição de Bolsonaro. O país enveredou por uma trilha da qual não sabe como sair e que a cada dia fica mais obscura. Há novos hábitos sendo cozinhados num caldeirão que é revolvido por uma trupe de pessoas pouco qualificadas, sem generosidade, fanatizadas por uma narrativa que não se imaginava poder sair do submundo intelectual em que vicejava. Vem daí o pasmo e a surpresa que se abateram sobre o campo político laico e progressista, dos liberais democráticos às esquer- das fundamentalistas, passando pela esquerda democrática. Estão todos paralisados, com um grito preso na garganta, sem saber que rumo tomar, como se opor ou resistir à onda direitista e fascis- toide que ameaça se prolongar, misturada com um neoliberalismo impreciso na economia e todo tipo de improvisações. Tal onda segue a cavalo de um anticomunismo apoplético que se articula com uma declarada, mas não esclarecida, “moralização dos costumes”. Estabelece-se uma relação de causalidade entre duas dimensões que nada têm entre si: o “comunismo” seria o cau- sador da decadência moral da sociedade; seu materialismo, seu desejo de poder, seus métodos de trabalho e seu caráter insidioso estariam na base da desagregação da ordem social e da corrupção das famílias, todas elas recatadas e tementes a Deus. Seria o caso então de desconstruir os fundamentos do mal para, quem sabe, mais à frente, construir algo novo. É assim que o novo grupo diri- gente justifica sua inoperância governativa, sua falta de propostas e suas trapalhadas. A moralização pretendida quer repor uma ordem que teria sido perdida, recuperar limites que teriam sido ultrapassados, enqua- drar a diversidade social em um quadro unitário que ressoa auto- Seis meses depois 19