O governo foi assim inchando-se de ideologia e disputas, ficou
pesado e sem agilidade. Complicou-se, ainda, com a proliferação
de ataques à imprensa, manobras familiares, futricas e bate-bocas
virtuais, que contaram com a participação do próprio presidente.
Abriram-se vazios inadequados. A própria base parlamentar gover-
nista, que se imaginava seria formada pelo PSL, mostrou fragili-
dade e passou a criar embaraços, na medida em que cresceu sua
expectativa de ocupar cargos e obter vantagens.
Formou-se desse modo uma tendência a que o grupo mais bem
organizado – o dos generais – adquirisse maior protagonismo e ten-
tasse chamar para si a missão de “enquadrar” o governo, ocupando
espaços e buscando incrementar a coordenação governamental.
A demissão de Gustavo Bebianno fez com que se acendessem as
luzes de alerta, pelas razões que a motivaram, pelo modo como foi
feita e pelas consequências que deverá ter. Os militares, porém, que
são bons em coordenação, não têm intimidade com a política, que
é o fator que mais pesa no momento.
Crises assim precisam ser compreendidas como situações
repletas de implicações e desdobramentos, que no limite podem
ser paralisantes e catastróficos. Revelam estilos de atuação, modos
de resolver pendências internas e absorver pressões. No caso em
questão, a crise que se arrasta já passados cento e oitenta dias,
mostra um governo atarantado, sem um projeto comum ou um pro-
grama claro de atuação, sobrecarregado de adrenalina e emoção.
Tenta compensar sua inoperância política com o pretexto de que
está a organizar uma governança sui generis. A demagogia infla-
mada e as promessas reacionárias ainda mantêm ativa parte das
bases sociais que o elegeram. Mas deflagram sua má qualidade
gerencial e sua dificuldade de ganhar estabilidade. As pesquisas
feitas neste período atestam que sua popularidade balança.
Impulsionado pelo protagonismo raivoso e paranoico do clã Bol-
sonaro, de seus gurus e colaboradores mais próximos, o governo
parece disposto a atirar nos próprios pés, como se isto fosse prova
de ousadia e destemor. Sem base parlamentar confiável e limitado,
no plano social, a apoios negativos (contra a “esquerda”, os “comu-
nistas” e o “marxismo”), flerta com o desentendimento permanente
e com uma combustão interna que poderá inviabilizá-lo ou levá-lo
a um endurecimento extemporâneo, que não o ajudará.
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Marco Aurélio Nogueira