Pedras e Demônios pd53 | Seite 20

O governo foi assim inchando-se de ideologia e disputas, ficou pesado e sem agilidade. Complicou-se, ainda, com a proliferação de ataques à imprensa, manobras familiares, futricas e bate-bocas virtuais, que contaram com a participação do próprio presidente. Abriram-se vazios inadequados. A própria base parlamentar gover- nista, que se imaginava seria formada pelo PSL, mostrou fragili- dade e passou a criar embaraços, na medida em que cresceu sua expectativa de ocupar cargos e obter vantagens. Formou-se desse modo uma tendência a que o grupo mais bem organizado – o dos generais – adquirisse maior protagonismo e ten- tasse chamar para si a missão de “enquadrar” o governo, ocupando espaços e buscando incrementar a coordenação governamental. A demissão de Gustavo Bebianno fez com que se acendessem as luzes de alerta, pelas razões que a motivaram, pelo modo como foi feita e pelas consequências que deverá ter. Os militares, porém, que são bons em coordenação, não têm intimidade com a política, que é o fator que mais pesa no momento. Crises assim precisam ser compreendidas como situações repletas de implicações e desdobramentos, que no limite podem ser paralisantes e catastróficos. Revelam estilos de atuação, modos de resolver pendências internas e absorver pressões. No caso em questão, a crise que se arrasta já passados cento e oitenta dias, mostra um governo atarantado, sem um projeto comum ou um pro- grama claro de atuação, sobrecarregado de adrenalina e emoção. Tenta compensar sua inoperância política com o pretexto de que está a organizar uma governança sui generis. A demagogia infla- mada e as promessas reacionárias ainda mantêm ativa parte das bases sociais que o elegeram. Mas deflagram sua má qualidade gerencial e sua dificuldade de ganhar estabilidade. As pesquisas feitas neste período atestam que sua popularidade balança. Impulsionado pelo protagonismo raivoso e paranoico do clã Bol- sonaro, de seus gurus e colaboradores mais próximos, o governo parece disposto a atirar nos próprios pés, como se isto fosse prova de ousadia e destemor. Sem base parlamentar confiável e limitado, no plano social, a apoios negativos (contra a “esquerda”, os “comu- nistas” e o “marxismo”), flerta com o desentendimento permanente e com uma combustão interna que poderá inviabilizá-lo ou levá-lo a um endurecimento extemporâneo, que não o ajudará. 18 Marco Aurélio Nogueira