Atritos e divergências
Os atritos e divergências que têm agitado o governo Bolsonaro
desde seu início não se devem tão somente ao “fogo amigo” ativado
pelos filhos do presidente. O protagonismo do clã complica a ação
governamental, mas precisa ser avaliado em conjunto com a con-
fusão intrínseca ao bloco de forças que elegeu Bolsonaro. O baixo
nível, a escalada da grosseria, a completa ausência de ideias, um
ministério raquítico, a incapacidade de dar prioridade à política e
dialogar com o Congresso, tudo isso e mais um pouco ajudou a
fazer com que os primeiros meses do novo governo transcorressem
em ritmo de bagunça, decepção e descontrole. Nada parece ter con-
dições de auxiliá-lo a encontrar um prumo.
As eleições de 2018 foram realizadas em um contexto inusitado.
Diferentemente do que se passara nos tempos da redemocratização
e durante os governos de FHC, Lula e Dilma ao menos até 2013, a
política deixou de ser ativada por partidos políticos ou movimentos
organizados. PMDB, PT e PSDB foram tragados por novas dinâmicas,
marcadas por inflexões “anárquicas” e muito “espontaneísmo”, tudo
devidamente turbinado pelas redes. O quadro de fragmentação e pola-
rização política contribuiu tanto para esfacelar o campo democrático
quanto para impossibilitar que a sociedade discutisse com cuidado os
principais problemas do país e as propostas dos candidatos.
Bolsonaro venceu graças a um desejo de mudança que latejava
na sociedade e foi por ele capturado, em parte porque os grandes
partidos se desagregaram, em parte porque as forças democráticas
não foram competentes para se articularem e oferecerem candida-
turas que seduzissem os eleitores.
O governo se formou sem um programa claro e reunindo pedaços
de um caótico movimento mudancista. Assentou-se sobre um arranjo
submetido à pressão de quatro focos de poder, cada um dos quais
buscando agendar o presidente: os filhos, os economistas de Paulo
Guedes, os generais, a equipe de Sérgio Moro. A disputa entre eles
despontou já no período de transição e foi-se amplificando na medida
em que Bolsonaro se sentiu obrigado a cumprir suas polêmicas “pro-
messas de campanha” e chamou para auxiliá-lo um agregado de figu-
ras menores, encarregadas de fazer fumaça e reverberar a retórica
ideológica, grosseira e moralizante que ajudou a eleger o presidente.
Em vez de cuidar da governança, o núcleo mais engajado do
governo optou por permanecer em campanha, comprando brigas e
fazendo inimigos. Incrementou seu lado mais doutrinário e brutal.
Seis meses depois
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