Pedras e Demônios pd53 | Page 19

Atritos e divergências Os atritos e divergências que têm agitado o governo Bolsonaro desde seu início não se devem tão somente ao “fogo amigo” ativado pelos filhos do presidente. O protagonismo do clã complica a ação governamental, mas precisa ser avaliado em conjunto com a con- fusão intrínseca ao bloco de forças que elegeu Bolsonaro. O baixo nível, a escalada da grosseria, a completa ausência de ideias, um ministério raquítico, a incapacidade de dar prioridade à política e dialogar com o Congresso, tudo isso e mais um pouco ajudou a fazer com que os primeiros meses do novo governo transcorressem em ritmo de bagunça, decepção e descontrole. Nada parece ter con- dições de auxiliá-lo a encontrar um prumo. As eleições de 2018 foram realizadas em um contexto inusitado. Diferentemente do que se passara nos tempos da redemocratização e durante os governos de FHC, Lula e Dilma ao menos até 2013, a política deixou de ser ativada por partidos políticos ou movimentos organizados. PMDB, PT e PSDB foram tragados por novas dinâmicas, marcadas por inflexões “anárquicas” e muito “espontaneísmo”, tudo devidamente turbinado pelas redes. O quadro de fragmentação e pola- rização política contribuiu tanto para esfacelar o campo democrático quanto para impossibilitar que a sociedade discutisse com cuidado os principais problemas do país e as propostas dos candidatos. Bolsonaro venceu graças a um desejo de mudança que latejava na sociedade e foi por ele capturado, em parte porque os grandes partidos se desagregaram, em parte porque as forças democráticas não foram competentes para se articularem e oferecerem candida- turas que seduzissem os eleitores. O governo se formou sem um programa claro e reunindo pedaços de um caótico movimento mudancista. Assentou-se sobre um arranjo submetido à pressão de quatro focos de poder, cada um dos quais buscando agendar o presidente: os filhos, os economistas de Paulo Guedes, os generais, a equipe de Sérgio Moro. A disputa entre eles despontou já no período de transição e foi-se amplificando na medida em que Bolsonaro se sentiu obrigado a cumprir suas polêmicas “pro- messas de campanha” e chamou para auxiliá-lo um agregado de figu- ras menores, encarregadas de fazer fumaça e reverberar a retórica ideológica, grosseira e moralizante que ajudou a eleger o presidente. Em vez de cuidar da governança, o núcleo mais engajado do governo optou por permanecer em campanha, comprando brigas e fazendo inimigos. Incrementou seu lado mais doutrinário e brutal. Seis meses depois 17