Pedras e Demônios pd53 | Page 18

Entoar a cantilena autoritária da “caça aos marxistas” nas esco- las somente serve para ocultar a falta de um plano de ação que se dedique a recuperar o sistema escolar. A política educacional des- ponta com um vezo moralista e conservador que ignora as graves deficiências que minam a educação brasileira. Há, também, falas ministeriais despropositadas, sem pé nem cabeça, feitas como se estivessem referidas a outro tempo histórico e a um país inexistente. Estão a ser rasgados importantes mapas de navegação, que poderiam dar ao governo alguma direção. Desprezam-se tradições consolidadas, práticas administrativas bem-sucedidas e atitu- des políticas que contribuíram para erguer o Brasil moderno que conhecemos e que, no momento inaugural de um novo governo, serviriam de base operacional e fator de equilíbrio. Submete-se assim a máquina governamental a um estresse perigoso, fazendo-a funcionar com uma bomba-relógio amarrada ao corpo, a marcar o estouro da próxima crise. Crises e dificuldades fazem parte da vida dos governos. No âmago deles acomodam-se, invariavelmente, interesses diversifica- dos, grupos de pressão, ideias conflitantes e indivíduos picados pela mosca do poder, que embriaga. Harmonias são compostas à custa de esforço e determinação, na dependência da presença de líderes qualificados para unir e agregar. Quando se desfazem, põem-se em campo os apaziguadores, apaga-se o incêndio sem a certeza de que um novo fogo não irromperá mais à frente. Mas crises agudas não são comuns nos primeiros meses de um novo governo, quando tudo deveria fluir com naturalidade, mesmo que com dificuldades. A lua de mel com a opinião pública, a expec- tativa positiva dos que elegeram os governantes e a legitimidade do presidente contribuem para dar ao novo grupo uma chama de entusiasmo e vontade que ajuda a mitigar as disputas internas. Crises nos primeiros meses geram desconfiança. Sugerem que um barco foi lançado ao mar sem rumo claro e desprovido de um capitão para manejá-lo. O barco vaga à deriva em alto-mar, ran- gendo nas tempestades sem conseguir evitar escolhos e ondas for- tes. A tripulação deixa de se entender, os passageiros ficam inse- guros e o próprio comandante, anestesiado e confuso, acaba por ajudar que o desentendimento prolifere. 16 Marco Aurélio Nogueira