Entoar a cantilena autoritária da “caça aos marxistas” nas esco-
las somente serve para ocultar a falta de um plano de ação que se
dedique a recuperar o sistema escolar. A política educacional des-
ponta com um vezo moralista e conservador que ignora as graves
deficiências que minam a educação brasileira. Há, também, falas
ministeriais despropositadas, sem pé nem cabeça, feitas como se
estivessem referidas a outro tempo histórico e a um país inexistente.
Estão a ser rasgados importantes mapas de navegação, que
poderiam dar ao governo alguma direção. Desprezam-se tradições
consolidadas, práticas administrativas bem-sucedidas e atitu-
des políticas que contribuíram para erguer o Brasil moderno que
conhecemos e que, no momento inaugural de um novo governo,
serviriam de base operacional e fator de equilíbrio. Submete-se
assim a máquina governamental a um estresse perigoso, fazendo-a
funcionar com uma bomba-relógio amarrada ao corpo, a marcar o
estouro da próxima crise.
Crises e dificuldades fazem parte da vida dos governos. No
âmago deles acomodam-se, invariavelmente, interesses diversifica-
dos, grupos de pressão, ideias conflitantes e indivíduos picados pela
mosca do poder, que embriaga. Harmonias são compostas à custa
de esforço e determinação, na dependência da presença de líderes
qualificados para unir e agregar. Quando se desfazem, põem-se em
campo os apaziguadores, apaga-se o incêndio sem a certeza de que
um novo fogo não irromperá mais à frente.
Mas crises agudas não são comuns nos primeiros meses de um
novo governo, quando tudo deveria fluir com naturalidade, mesmo
que com dificuldades. A lua de mel com a opinião pública, a expec-
tativa positiva dos que elegeram os governantes e a legitimidade
do presidente contribuem para dar ao novo grupo uma chama de
entusiasmo e vontade que ajuda a mitigar as disputas internas.
Crises nos primeiros meses geram desconfiança. Sugerem que
um barco foi lançado ao mar sem rumo claro e desprovido de um
capitão para manejá-lo. O barco vaga à deriva em alto-mar, ran-
gendo nas tempestades sem conseguir evitar escolhos e ondas for-
tes. A tripulação deixa de se entender, os passageiros ficam inse-
guros e o próprio comandante, anestesiado e confuso, acaba por
ajudar que o desentendimento prolifere.
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Marco Aurélio Nogueira