Como não são integrados por anjos, mas por homens, mulheres
e partidos, com suas paixões, suas idiossincrasias e seus apetites,
governos sempre tendem a se dividir em pedaços, pequenas almas
que competem entre si pelas luzes da ribalta, pelos aplausos do
público, pelos mimos do chefe. Somente uma alma que se destaque
e se imponha – uma anima magister – consegue domar os demônios
que brotam do cotidiano governamental.
Tem sido assim em todos os governos, dentro e fora do Brasil.
O Estado e sobretudo a sociedade sofrem quando são gover-
nados por governos desprovidos de alma: sem um programa, um
núcleo coordenador, um partido ou uma liderança inconteste, qua-
lificada para fazer com que prevaleça uma direção. Por não sabe-
rem que rumo tomar, governos sem alma agem por impulso, por
espasmos, ao sabor dos interesses parciais que nele preponderam
e nem sempre coabitam. Deixam assim de poder cumprir a missão
que deles se exige. No limite, vivem em turbulência, aos solavancos,
espalhando crises por todos os lados. Natural que, nessa situação,
tudo o que ocorre de problemático em seu interior reverbere no
exterior, desgastando-lhe ainda mais a imagem.
Passados seis meses de sua posse, o governo Bolsonaro não
mostrou possuir uma alma. Falta-lhe quase tudo: programa, pro-
jeto de país, discurso, comunicação, temperança, conhecimento
do terreno, prudência, capacidade de articulação, quadros técni-
cos e políticos competentes. Exceção feita às áreas mais “técnicas”
(Economia, Justiça, Agricultura, Infraestrutura), o restante é um
amontoado de figuras menores, com mentalidade provinciana, que
falam pelos cotovelos mas dizem pouco, como se tivessem, repenti-
namente, caído do céu para realizar uma tarefa que desconhecem e
para a qual não foram treinadas. A improvisação dá o tom.
Os ataques ao “globalismo” feitos em nome de uma “Pátria
soberana” que abaixa a cabeça para os poderosos do mundo são
acompanhados de um esforço contumaz para desmontar os pilares
institucionais, éticos e políticos da política externa brasileira. Des-
prezam as perspectivas que trabalham pela construção de um sis-
tema internacional mais cooperativo e sustentável, livre de muros
e barreiras ideológicas. O presidente disse em Davos que praticará
uma política econômica de abertura e acima de ideologias, ao passo
que seu ministro do Exterior se derrama em pregações ideológicas
e fala em fechar o país aos “globalistas”. É uma dentre várias dis-
sonâncias.
Seis meses depois
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