Pedras e Demônios pd53 | Page 17

Como não são integrados por anjos, mas por homens, mulheres e partidos, com suas paixões, suas idiossincrasias e seus apetites, governos sempre tendem a se dividir em pedaços, pequenas almas que competem entre si pelas luzes da ribalta, pelos aplausos do público, pelos mimos do chefe. Somente uma alma que se destaque e se imponha – uma anima magister – consegue domar os demônios que brotam do cotidiano governamental. Tem sido assim em todos os governos, dentro e fora do Brasil. O Estado e sobretudo a sociedade sofrem quando são gover- nados por governos desprovidos de alma: sem um programa, um núcleo coordenador, um partido ou uma liderança inconteste, qua- lificada para fazer com que prevaleça uma direção. Por não sabe- rem que rumo tomar, governos sem alma agem por impulso, por espasmos, ao sabor dos interesses parciais que nele preponderam e nem sempre coabitam. Deixam assim de poder cumprir a missão que deles se exige. No limite, vivem em turbulência, aos solavancos, espalhando crises por todos os lados. Natural que, nessa situação, tudo o que ocorre de problemático em seu interior reverbere no exterior, desgastando-lhe ainda mais a imagem. Passados seis meses de sua posse, o governo Bolsonaro não mostrou possuir uma alma. Falta-lhe quase tudo: programa, pro- jeto de país, discurso, comunicação, temperança, conhecimento do terreno, prudência, capacidade de articulação, quadros técni- cos e políticos competentes. Exceção feita às áreas mais “técnicas” (Economia, Justiça, Agricultura, Infraestrutura), o restante é um amontoado de figuras menores, com mentalidade provinciana, que falam pelos cotovelos mas dizem pouco, como se tivessem, repenti- namente, caído do céu para realizar uma tarefa que desconhecem e para a qual não foram treinadas. A improvisação dá o tom. Os ataques ao “globalismo” feitos em nome de uma “Pátria soberana” que abaixa a cabeça para os poderosos do mundo são acompanhados de um esforço contumaz para desmontar os pilares institucionais, éticos e políticos da política externa brasileira. Des- prezam as perspectivas que trabalham pela construção de um sis- tema internacional mais cooperativo e sustentável, livre de muros e barreiras ideológicas. O presidente disse em Davos que praticará uma política econômica de abertura e acima de ideologias, ao passo que seu ministro do Exterior se derrama em pregações ideológicas e fala em fechar o país aos “globalistas”. É uma dentre várias dis- sonâncias. Seis meses depois 15