A queda nos índices de aprovação somou-se ao prolongamento
da crise econômica, ao “caso Queiroz”, ao desgaste de Moro e a
sucessivas derrotas no Congresso, algumas emblemáticas, como
no caso da posse de armas. Em consequência, o Congresso ani-
mou-se a ocupar os vazios deixados pela desarticulação governa-
mental. Passou a atuar com desenvoltura, chamando para si até
mesmo a reforma da Previdência, que já não pode mais vista como
uma proposta do Executivo, ainda que possa beneficiá-lo.
O governo foi perdendo força ao longo dos meses. Não se pode
dizer que mergulhou na crise, pois ainda há vela para ser quei-
mada. Seu desempenho, porém, é medíocre. Entregou-se ao lado
negro da força, como se desejasse se concentrar em medidas man-
chadas de sangue: armas, desprezo pelas minorias, liberação de
agrotóxicos, facilitações no código de trânsito, combate a reservas
ambientais e a terras indígenas. Um estrago atrás do outro. Nada
o beneficiou.
Talvez por ter percebido os riscos que se embutem nessas esco-
lhas, o governo parece ter adotado algumas medidas de contenção.
Por um lado, mediante uma ordem unida informal, obrigou suas
alas a recuar na luta interna. Nas últimas semanas, já não se vê
tantos arranca-rabos patrocinados pelo mago da Virgínia ou por
Carlos Bolsonaro, que desgastavam o governo ao ritmo alucinante
de tuítes e postagens em redes sociais. Os ministros mais ideológi-
cos – Weintraub e Araújo – aprofundaram seu posicionamento no
fundo do palco e diminuíram o uso abusivo do estoque de bobagens
que possuem. Não estão fora de circulação, ainda falam, mas pare-
cem mais contidos.
Por outro lado, Bolsonaro começou a falar em reeleição. Pode
ser um projeto, pode ser tão somente uma nova maneira de manter
acesa a chama de seus seguidores mais fanáticos.
Ao mesmo tempo, porém, são declarações que podem acender a
chama do lado oposto e ajudar os democratas a agirem com maior
competência e determinação.
O jogo ainda está no começo.
Almas e Demônios
Governos costumam ter alma. Os melhores caracterizam-se
por possuir uma consistente, que lhes dá força, coesão e audácia
no campo político e administrativo. Os piores, ao contrário, vivem
sem eixo.
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Marco Aurélio Nogueira