Pedras e Demônios pd53 | Page 16

A queda nos índices de aprovação somou-se ao prolongamento da crise econômica, ao “caso Queiroz”, ao desgaste de Moro e a sucessivas derrotas no Congresso, algumas emblemáticas, como no caso da posse de armas. Em consequência, o Congresso ani- mou-se a ocupar os vazios deixados pela desarticulação governa- mental. Passou a atuar com desenvoltura, chamando para si até mesmo a reforma da Previdência, que já não pode mais vista como uma proposta do Executivo, ainda que possa beneficiá-lo. O governo foi perdendo força ao longo dos meses. Não se pode dizer que mergulhou na crise, pois ainda há vela para ser quei- mada. Seu desempenho, porém, é medíocre. Entregou-se ao lado negro da força, como se desejasse se concentrar em medidas man- chadas de sangue: armas, desprezo pelas minorias, liberação de agrotóxicos, facilitações no código de trânsito, combate a reservas ambientais e a terras indígenas. Um estrago atrás do outro. Nada o beneficiou. Talvez por ter percebido os riscos que se embutem nessas esco- lhas, o governo parece ter adotado algumas medidas de contenção. Por um lado, mediante uma ordem unida informal, obrigou suas alas a recuar na luta interna. Nas últimas semanas, já não se vê tantos arranca-rabos patrocinados pelo mago da Virgínia ou por Carlos Bolsonaro, que desgastavam o governo ao ritmo alucinante de tuítes e postagens em redes sociais. Os ministros mais ideológi- cos – Weintraub e Araújo – aprofundaram seu posicionamento no fundo do palco e diminuíram o uso abusivo do estoque de bobagens que possuem. Não estão fora de circulação, ainda falam, mas pare- cem mais contidos. Por outro lado, Bolsonaro começou a falar em reeleição. Pode ser um projeto, pode ser tão somente uma nova maneira de manter acesa a chama de seus seguidores mais fanáticos. Ao mesmo tempo, porém, são declarações que podem acender a chama do lado oposto e ajudar os democratas a agirem com maior competência e determinação. O jogo ainda está no começo. Almas e Demônios Governos costumam ter alma. Os melhores caracterizam-se por possuir uma consistente, que lhes dá força, coesão e audácia no campo político e administrativo. Os piores, ao contrário, vivem sem eixo. 14 Marco Aurélio Nogueira