Pedras e Demônios pd53 | Page 15

Seis meses depois Marco Aurélio Nogueira U m semestre depois de iniciado, o governo Bolsonaro exibe uma única realização clara: a queda nos índices de aprova- ção, que chegaram aos 32%. Em parte é compreensível. Governos que nascem de rupturas tendem a demorar mais tempo para engrenar. Experimentam segui- damente, acham que podem explorar às cegas novos caminhos, precisam aprender a fazer costuras complicadas em um material que não dominam. Tendem a agregar pessoas jejunas em política e administração, muitas delas ressentidas e com desejo de vingança. Bolsonaro levou tudo isso ao paroxismo. Sua equipe foi com- posta de modo aleatório, a partir do que encontrou pelo caminho, sem maior critério técnico ou político, exceção feita a alguns pou- cos. Nasceu e evoluiu sem lideranças, o que prejudicou tanto a for- matação de propostas e programas de governo quanto a articulação parlamentar e o diálogo com a sociedade. Pessoas desprovidas de talento, de vocação e de uma rota segura compuseram um ministério fadado a girar em falso, movido pela ilusória melodia da guerra ideológica. O governo acreditou que, não sabendo o que oferecer de concreto à sociedade, ela se satisfaria com ataques apopléticos à esquerda, ao globalismo e às políticas identitárias, em nome de Deus, da moral e dos bons costumes. Não funcionou. Seis meses depois 13